O MC Buseta é o primeiro MC brasileiro feito na gringa

A grande praça de concreto em frente ao Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA), na Espanha, é um ponto comum na rota dos turistas. Ali eles tiram fotos, aproveitam o clima ameno da cidade, descansam entre um vinho e outro, fumam um para aproveitar um pouco da tolerância europeia.

O pavilhão, nos mapas turísticos e no Google Maps, se chama Praça dos Anjos, mas quem manda lá é El Diablo. Esse é o segundo nome pelo qual atende João Pedro Rosa de Mesquita, o MC Buseta. Sim, com S para que soe igual em português e em espanhol.

João saiu do Brasil quando tinha 10 anos. Ele foi ao encontro da mãe que, como muitos brasileiros, já tinha partido à Europa em busca de melhores oportunidades. E foi nesse canto central de Barcelona, em frente ao MACBA, que o jovem cresceu.

Ali João andava de skate, usava o skate para brigar com rivais, beijava chicas e novinhas, bebia vodca com Kas ou rum com Coca, fumava e vendia maconha para gringos incautos — “gringos na seca são notas de dinheiro com pernas”, diz Buseta — e de vez em quando até era preso.

Não faz muito tempo. João hoje tem 19 anos e lamenta. “Tô ficando velho, mano”, diz ele durante uma conversa num fim de tarde em Paris. João esteve na França neste fim de novembro, onde se apresentou pela segunda vez em menos de seis meses. Sua vida de artista é o que o tem afastado da vida ruera, um Capitães de Areia catalão.

Desde que encarnou MC Buseta, há pouco mais de dois anos, o jovem tem chamado atenção. Ele já estampou páginas do jornal El País, foi cotado para o Primavera Festival, é linha de frente da Vendicion Records (importante selo espanhol do guarda-chuva “música urbana”) e, além de França e Espanha, tem um show no México e uma Boiler Room no currículo.

O jovem também tem 26 mil seguidores no Instagram, aplicativo que usa o tempo todo. Pode não parecer muito, mas o número é suficiente para o carimbo: Buseta é o primeiro MC brasileiro do estrangeiro, feito numa mistura de funk, trap, reggaeton, vida de rua e stories toscos — inclusive ele acabou de me enviar uma mensagem pedindo as fotos da entrevista, que você lê abaixo, em três atos.

Noisey: Eu preciso te perguntar isso: por que MC Buseta?
MC Buseta: Porque eu só pego buceta. Todo mundo falava isso: você não para de pegar buceta! Não que eu queira ficar falando, não… Eles que falavam e uma hora eu pensei: MC Buseta!

Foi uma época boa, né.
Tava cheio de novinha querendo me dar! [Canta o trecho “Cheio de Novinha”, de MC Lan, MC W1, MC Nando DK e DJ Gege].

Ninguém te chama de João?
Só Buseta! Eu dou risada. Antes era MC Joãozinho.

Me diz um pouco sobre sua vida antes da Espanha, então: você nasceu em São Paulo?
Eu nasci em São Paulo, na Zona Sul, e meus pais se separaram quando eu era pequeno. Meu pai foi morar na Zona Norte e minha mãe ficou na Zona Sul. Aí eu revezava, mas ficava mais com minha mãe e com minha avó do que com meu pai.

Isso às vezes é até natural…
É, mas é que homem é uma merda, né.

Você tem uma boa relação com seu pai?
Nem falo com ele. Ele não fala comigo. Foda-se.

Você volta pro Brasil pela primeira vez agora no fim do ano, certo?
Sim, pra ver minha avó, passear…

E quando você foi pra Espanha? Quando sua mãe decidiu ir?
Ela estava lá trabalhando e eu morava com a minha avó quando eu tinha uns nove anos. Minha avó é como minha mãe, mas eu fui pra Espanha pra ficar com a minha mãe. Só que com 14 anos eu já estava morando sozinho.

Onde você morava com sua mãe?
Ficava perto do MACBA, no Raval [bairro central de Barcelona de grande população imigrante]. A gente morava num quarto, depois a gente foi pra uma casa… Até que eu arrumei uma namorada, com 14 anos.

E aí você foi morar sozinho?
Sim, porque eu vi que o bagulho era fácil pra ganhar dinheiro. E arrumei uma namorada, morava com ela.

Como assim, fácil?
Com 15, 16 anos eu comecei a vender maconha.

E hoje em dia?
Hoje em dia eu só compro! O pai da minha ex-namorada era o traficante, ele tinha o contato.

Foi assim que você passou a vender?
É, eu não traficava! Eu vendia pouca coisa pra turista. Eu sobrevivia, não tinha clientes… A gente pegava um gringo e marretava ele. A gente falava: 10 euros pra 1 grama.

E o gringo pagava…
Pagava! A gente chegou a fazer 500 euros por dia. O dinheiro era fácil! Eu ficava louco!

O que sua mãe achava disso?
No começo ela nem sabia, mas se a polícia te pega você fica dois dias numa sala lá na delegacia. Quando eu era menor, ela tinha que me buscar na delegacia às vezes e ela se dava conta do que eu estava fazendo. Era foda, porque ela me via e chorava. Era ruim.

Quantas vezes a polícia te pegou?
Não sei dizer. Mas por qualquer coisa… Se você briga com alguém lá, você vai preso. E tem juiz, e você pode pagar multa até se quebrar o nariz do cara.

E mesmo assim você vivia no MACBA?
Sim, andava de skate ali, bebia. A polícia passa ali três vezes por dia: de manhã, ao meio dia e à noite pra mandar todo mundo embora. Então dá pra fumar baseado, andar de skate, beber. Ali é da hora, está cheio de gringona também! [risos] Eu sempre fiquei na rua, nunca fiquei jogando videogame em casa. É foda, eu vim pra Espanha pra ficar “normal”, mas o bagulho me fez acordar pra vida. Desde pequeno eu criei consciência.

Me parece difícil pra sua mãe porque ela tinha de trabalhar e você ficava sozinho, não tinha ninguém, nem família…
Eu via tudo, eu via que era difícil, mas eu não entendia nada. Eu entendi agora que eu cresci e agora ajudo minha mãe. Ela não tinha nem documentos pra fechar contratos.

Você chegou a trabalhar em outra coisa?
Também trabalhei numa balada.

Você já conseguiu ajudar sua mãe com o dinheiro da música?
Já, já paguei aluguel… Antes ela queria saber de onde vinha o dinheiro. Eu já dava dinheiro quando trabalhava nessa balada. Era ilegal, mas eu ganhava muito dinheiro. Vendia maconha, limpava a balada, fazia café, o que precisasse… Eu trabalhava todo dia porque não tinha nada pra fazer. Era melhor do que ficar na rua.

Latinoamérica na pista

Foto: Felipe Maia/VICE

MC Buseta vem de uma leva de artistas espanhois que apropriam-se de gêneros latino-americanos já fundamentais para o país europeu. Eles não o fazem como Enrique Iglesias e seu pastiche para vender. É algo de aspirações obscuras, parecido com o quê artistas do Reino Unido fizeram com a música eletrônica norte-americana dos anos 80 e 90.

Assim, cumbia, dembow e reggaeton se encontram com o trap e a vida nas rua de metrópoles como Barcelona e Madri, do baile ao estereótipo delinquente (“quinqui”). Some isso a estúdios baratos e referências de cultura digital de todo o tipo que se cruzam no Instagram e, pronto, surgem nomes como Bad Gyal, Bea Pelea, Ms Nina, e, é claro, MC Buseta.

Isso explica porque muitas vezes MC Buseta se apresenta em baladas. Seu som pode servir para um palco de casa de show, mas também cai bem em um clube de música eletrônica lotado, com as paredes suadas. Nesse caso, como foi seu show em Paris, Buseta entra em alguns momentos durante o set do DJ Paul Marmota.

Buseta puxa alguns trechos de funk (“Tá tranquilo, tá favorável” do MC Bin Laden ainda é sucesso na Europa) durante o show e também manda suas músicas, como “Somos de Calle” e “Novinha”. As faixas são frias, ainda que se escute o inconfundível ritmo do tamborzão e alguns samples conhecidos no Brasil. Ele diz que é funk de vampiro.

MC Buseta durante apresentação em Paris. Foto: Felipe Maia/VICE

Noisey: Nessa época que você estava mais de rua, da praça do MACBA, é que você começou a fazer música?
MC Buseta: A praça do MACBA é tipo a praça da República em São Paulo. Tinha muita briga, eu andava de skate, a gente improvisava no rap, mas eu não sabia que ia canta Aí a gente conheceu uns caras que são famosos na Espanha, o Pxxr Gvng [Grupo de trap espanhol, atualmente conhecido como Los Santos]. A gente saía de rolê com eles e eles viram que a gente fazia freestyle, aí falaram: “Por que vocês não escrevem umas músicas? Dá pra ganhar dinheiro!” Aí a gente cresceu os olhos! A gente imaginava que a gente ia fazer dinheiro, show, transar e ir embora, mas não… O bagulho é trabalho! Isso foi com 16 anos, quando formamos o Los Sugus, e eu continuava a vender maconha.

Esses nossos amigos do Pxxr Gvng nos emprestavam o estúdio às vezes. Tinha dias que a gente cantava com eles. O Yung Beef, que fazia parte desse grupo, foi quem me chamou pra cantar. Mas a gente sempre estava no MACBA. A gente ficava lá meia hora, não tinha nada pra fazer, aí aparecia um gringo e a gente tirava uma grana. Era um trabalho: a gente chegava às 10h da manhã e saía às 22h. Eu encarava dessa maneira.

Mas quando rola essa passagem pra música de vez?
O Los Sugus nunca virou um bagulho certo. Meus amigos não se davam como eu me dava. Eu estava tentando algo sério, pra fazer algo com a música. Aí a gente se separou, eu comecei a fazer música sozinho. E agora arrancou, eles estão vendo como eu estou viajando, e agora eles estão fazendo música. A gente tinha uma competitividade, é algo normal.

Teve uma vez que eu passei cinco dias direto no estúdio. Sem tomar banho, comendo pão com queijo. Eu estava trabalhando nisso, eu vi que o bagulho é trabalhar e não ficar esperando. Gravei trinta músicas, e peguei dez. As boas! Aí joguei umas no YouTube, e funcionou. Foi no começo de 2017. E eu tinha um amigo empresário e ele me perguntou se eu queria trabalhar.

Aí você se torna mais conhecido e passa a fazer shows?
Tinha uma música, “Bota bota”, que eu pus no meu Instagram e estourou. E ainda nem saiu oficialmente a música.

Mas tem que ter algum motivo pra essa música estourar no Instagram…
É que eu já tinha 17 mil seguidores. A gente era famosinho porque a gente tretou com alguns rappers de Barcelona.

Vocês saíam na mão ali no MACBA, então?
Sim, na rua mesmo, de dar skatada. Era porque esses caras queriam brigar com alguns amigos nossos, ali no MACBA, e a gente os defendia. Aí teve uma vez que alguém que conhece esses rappers gravou o vídeo, pôs nas redes e aí a gente foi ficando famoso.

Então vocês ficaram conhecidos até antes da música.
Sim, era como se fossemos os sicários do MACBA! [risos] Todo mundo conhece a gente ali. Ganhei meu respeito lá.

E esse trabalho de dias no estúdio, no que deu?
Aí fiz uma mixtape, Heartbroke, e estourou uma música que é “Novinha”. Depois fiz o clipe “Somos de Calle”, no MACBA mesmo, que também estourou.

Como que o funk chegou até você?
A gente sempre colocava pra tocar nas caixinha de som ali no MACBA, escutando MC Brinquedo, MC Pikachu… Depois teve o Kevinho, o Fioti. Esses caras fizeram a conexão. Acho que o funk chega na Espanha até por minha culpa!

Você é o primeiro MC espanhol!
É!

E o que você acha de trap?
Muito chato. Escuto pra dormir.

Mas dá pra dizer que seu som tem muito trap.
É porque eu trabalhei com produtores que fazem, pra mim, música futurista. É um som diferente do funk de favela mesmo. A voz, a base pode até ter um trap, mas se me colocarem uma base de funk pra cantar, eu estouro!

Que tipo de música você escuta?
Só funk! Escuto um pouco de forró… Mas forró novo. Pagode também. Eu gosto do MC Don Juan, MC Lan — tem que falar pra ele fumar um comigo — e Kevin o Chris. Esse cara é artista!

O que você está planejando para os próximos meses?
Eu vou lançar um álbum de putaria, de baile, com letras sobre a rua, sobre a vida. Depois tem uns singles e depois mais um álbum, esse mais romance, mais comercial. Eu quero ficar nas duas ondas, rua e comercial. Senão eu vou mais pro comercial, mesmo.

Mas você mudaria seu estilo se ficasse mais comercial? Por quê?
Já estou fazendo isso, eu acho. Por causa de dinheiro, pra ajudar minha mãe. Dinheiro não é tudo, mas ajuda. Minha mãe e eu, a gente precisa dessa ajuda pra ficar bem, a gente merece.

Como você definiria seu som?
É um baile funk futurista, é algo novo. Não sei se é O novo, mas em comparação ao funk atual,. O 150 BPM é algo futurista também.

Você se enxerga dentro de uma nova cena espanhola?
Tenho apenas sete músicas, mas eu me considero dentro. É uma cena que mistura tudo, pode ser trap, reggaeton… O que está saindo é melhor que o rap. É igual no Brasil, né, com o funk. Não tem fluxo de rap, né.

Chaves, mãe e Bolsonaro

É uma tatuagem do Chaves, sim. Foto: Felipe Maia/VICE

João tem o ensino médio incompleto. Ele acabou largando a escola entre as várias matrículas que colecionou em centros de detenção para menores. A música trouxe a ele, pela primeira vez de maneira limpa, a grana que antes entrava de modo escuso.

Talvez por isso sua mãe não tenha se importado muito com o nome MC Buseta — na verdade, ele diz que ela questionou um pouco, sim, a ideia. Hoje, João ajuda em casa e tem sua documentação regulamentada. Por isso se dá ao luxo de voltar ao Brasil.

Quando João (Joáo, na pronúncia espanhola) fala, é impossível não notar o forte sotaque no seu português. Isso não o impede de se dizer brasileiro. Tanto a ponto de esculachar Bolsonaro, ter uma lista de MCs favoritos atualizada, gostar de tapioca e ter uma tatuagem do Chaves na coxa esquerda acima do nome da mãe.

Noisey: Você agora tem dez anos de Espanha, metade da sua vida. Você se sente espanhol ou brasileiro?
MC Buseta: Tem brasileiro que chega na Espanha que tem muita cara de pau. Os caras são muito safados! E eu me vejo como eles, mas eu também estou europeizado. Eu vejo algumas coisas de forma diferente. Os latinos que são recém-chegados… Eu tenho um amigo dominicano que tem um irmão que está preso porque ele chegou na Espanha e ficou louco. Por quê? Porque lá [na República Dominicana] tinha muita liberdade e ele não pensou quando chegou aqui. Ele tinha de chegar e ficar mais de boa. Hoje eu vejo que a Europa está mais atualizada que o Brasil.

Como assim: atualizada?
A vida, mano.

Mais qualidade de vida?
Isso.

Mas você sente que você é brasileiro?
Sim. É algo no corpo. Eu não paro de me mexer. Eu sou bem safado também! Eu sou brasileiro mesmo!

É real que tem muito europeu que tem problema pra se soltar.
É que é muito frio também. Eu entendo. Eu tenho um amigo francês que conheci em Barcelona e ele não gostava de reggaeton. Aí eu perguntei pra ele: por quê? Ele me disse que não sabia dançar, aí eu falei pra ele dançar, pegar uma mina… Esse moleque hoje em dia ama reggaeton, eu juro! Tem gente que é muito fechada, que não abre a mente.

Só na Europa?
Em qualquer lugar do mundo, mas o Brasil sempre esteve mais aberto pra música. A música no Brasil é arte. A música é muito mais atualizada lá que na Europa.

E o que você acha da situação política no Brasil agora?
Chegou o novo presidente aí, né, esse filho da puta. Vai tomar no cu!

O Bolsonaro?
É um filho da puta! Eu não gosto dele! [Risos]

Então você acompanha a política brasileira? Por que você acha que ele foi eleito?
Agora eu acompanho, mas antes eu não estava nem aí. Eu falei com a minha mãe sobre isso e ela me disse que eu não tenho nada a ver, que eu nem moro lá. Minha mãe fala que gosta dele porque ele vai foder com os bandidos: vai botar o exército nas cidades e quer legalizar as armas. Mas isso é a pior coisa que ele pode fazer, ele quer fazer um novo EUA, mas eles estão fodidos lá. Só não estão piores porque tem dinheiro e poder.

E a Espanha, você acompanha a situação? O país ainda está em crise.
Eu nem ligo, nem sei de nada, mas sei que tem amigo meu que fez universidade que trabalha no Burger King.

O que você vai fazer quando chegar no Brasil?
Ir pra um baile funk! Comer tapioca! E cheirar! E como se chama aquilo lá… Nargalê?

Narguile?!
Isso! Que nome feio, mano! Eu conheci faz pouco tempo esse nome. Nem curto isso… Eu fumo baseado. Eu fumo baseado porque me inspira. E, quando eu era pequeno, me ajudava a me acalmar, esquecer a realidade.

Hoje é mais pra inspiração.
Sim. Eu não minto nas letras: penso em algo que fiz, penso numa história que vivi. Fumar e ficar bêbado: assim saem as melhores músicas. O artista que falar que isso é mentira, é ele o mentiroso. Todos os artistas ficam loucão no estúdio, cheiram, é foda mas é assim.


Matéria originalmente publicada em novembro de 2018 na VICE Brasil.