O pacto de sangue entre rap e futebol na França

Como ocorre no Brasil, o fim de cada jogo da França na Eurocopa 2016 acompanhou intermináveis mesas redondas na TV. Após a derrota para Portugal, todas lamentavam o gol do atacante Éder e tentavam, em vão, explicar o porquê do vice-campeonato.

Dias antes, nas quartas-de-final, o clima da análise era oposto: a maior parte das discussões celebrava os pormenores da goleada de 5 a 2 na Islândia. No canal i-Tele, um grupo questionava o gesto de Paul Pogba, meio-campista francês, ao comemorar seu tento. “Não seria uma ofensa ao público?”, questionou um deles.

“Isso é um dab”, respondeu Djibril Cissé. Com a tranqulidade de quem revela um segredo conhecido, o ex-jogador explicou que aquilo era um passo de dança importado do hip-hop. Era mais um exemplo da frutífera relação entre rap e futebol na França.

“Os jogadores estão muito próximos do rap por aqui, eles escutam esse tipo de música no vestiário, eles estão atualizados com o que tem de novo”, explica Mohammed Sylla. Mais conhecido por MHD, o rapper de 21 anos é a mais recente sensação do hip-hop francês Com seu chamado “Afro-Trap”: uma mistura de texturas do oeste africano a arranjos e prosódias clássicas do rap norte-americano.

Nos clipes, as camisetas de futebol são obrigatórias. Nas letras, o jovem exalta equipes como o PSG, elogia atacantes como até então desconhecido Keita Cheik — um amigo de infância — e faz um ode ao célebre atacante camaronês Roger Milla. “Eu não o conhecia, mas vi uns vídeos dele na internet e reparei na sua comemoração”, diz ele.

A rima de MHD se junta a uma centena de outras do rap francês que mencionam figuras mais ou menos conhecidas do futebol. O levantamento foi feito pelo Genius, plataforma que funciona como uma Wikipédia do rap com milhares de letras e explicações segundo seus usuários. Além da quantidade de alusões, o que impressiona é a variedade.

Franceses conhecidos estão na lista, como Zinedine Zidane e Michel Platini, mas também há espaço para jogadores de diversos países como Colômbia, com Carlos Valderrama, Bulgária, com Emil Kostadinov, e Brasil, num escrete que vai de Neymar a Pelé. Até mesmo o técnico Luis Felipe Scolaritem sua vez no rap francês.

“A maior parte dos jogadores é citada por causa do salário”, explica Guillaume Simonin, diretor do Genius na França. “É um tipo de objetivo para os rappers conseguir uma quantia de dinheiro tão elevada como alguns esportistas milionários.” Outra razão seria o estilo de jogo de cada atleta. “Um jogador agressivo, violento ou aquele que se impõe no jogo, por exemplo, será citado pelo rapper para representar sua música.”

Nessa categoria entram várias faixas que fazem menção ao próprio Pogba ou mesmo uma outra que repete incansavelmente o nome de seu companheiro de meio de campo na seleção, Dimitri Payet. De tão recentes, as músicas ainda não entraram na lista do Genius.

O nome de MHD pode ser encontrado na página menos de seis meses após o lançamento do seu primeiro álbum, Holi. O rapper já ostenta números para um disco de ouro, milhares de visualizações no YouTube, uma indicação ao BET Awards 2016 (prêmio norte-americano voltado a artistas negros) e shows lotados não só na França, mas em países africanos como Gana.

MHD no palco. Foto: Elisa Parrori/ Divulgação

O sucesso também pode ser medido dentro de campo. Em fevereiro, o jogador Adrien Rabiot, do PSG, comemorou um gol em cima do Olympique Lyonnais com um passinho de dança do clipe “Afro Trap Part.3 (Champions League)”. “Eu estava na arquibancada e fiquei surpreso quando vi”, diz MHD.

Do estúdio ao estádio o caminho é similar ao tomado pelas músicas mais populares do Brasil. Graças à internet, às redes sociais e a algumas rádios, o que é velho para uma jovem parcela da população é novidade para outros tantos. “Quando um jogador faz isso, a música ganha em notoriedade, os jornalistas falam sobre ela”, explica Jean Michel Mougeot. “Mas não no público original: eles conhecem essas músicas antes de todos.”

Diretor do centro cultural de hip-hop La Place, recém-inaugurado no centro de Paris, Mougeot lembra do caso do jogador Matuidi. Também meio-campista da seleção francesa, ele comemora alguns de seus gols com o passinho da clipe em que é mencionado pelo rapper Niska. “Uns entendem que é a dança, por exemplo, e outros se perguntam o que é aquilo.”

Além da caneta, além do gol
O contato entre jogadores e rappers aumenta na medida da popularização de cada metiê. “Atualmente, a maioria é de jogadores da França vem de origens populares”, diz Mougeot. O time que perdeu a final da Eurocopa 2016 para Portugal tem mais jogadores de origem africana ou árabe se comparado à seleção que derrotou o Brasil na final da Copa de 1998.

A matiz se repete entre os astros do rap francês, um mercado que desde os anos 80 só perde para EUA em tamanho devido à expressiva comunidade francófona na Europa e na África. Nos trens que ligam periferia e centro de Paris é fácil encontrar garotos vestidos com uniformes de futebol enquanto ouvem em seus fones as batidas encrespadas de alguma música nova do PNL, do Black M ou do Kalash. “Certamente três quartos dos jogadores de um time de futebol escutam rap”, diz Mougeot.

O casamento esconde uma latente tensão racial no país, fruto de anos de colonização em regiões do oeste da África e do Oriente Médio seguida de ondas constantes de imigração. Em 1998, a opinião pública francesa forjou o lema “blanc-black-beur” (algo como “branco-negro-árabe”) para exaltar a vitória no mundial de um time de união nacional. No intervalo até a Copa seguinte, 155 álbuns de rap francês foram lançados — um crescimento notável apontado pelo sociólogo Karim Hammou, autor do livro “História do Rap na França”.

Mesmo com o sucesso dos anos seguintes, as polêmicas na música e no esporte continuaram. Em maio desse ano, o rapper Black M faria um show no evento comemorativo de cem anos da batalha de Verdun, durante a 1ª Guerra Mundial, mas o espetáculo foi cancelado por pressões do Front National — partido de direita. Afastado da seleção por suposto envolvimento em um escândalo sexual, o atacante franco-argelino Benzema tinha afirmado ao jornal espanhol Marca no mês anterior: “Didier Deschamps cedeu à pressão de uma parte racista da França”.

Durante as férias forçadas o jogador não deixou de postar fotos com amigos como Booba — atualmente o mais famoso rapper da França. “Algumas vezes os rappers cresceram junto desses jogadores e eles são convidados para clipes, eles fazem os gestos dos rappers quando celebram o gol e alguns são até amigos, como Benzema e Booba”, diz Mougeot. “Hoje em dia, existem rappers que vem das periferias e jogadores de grandes times muitas vezes vem desses bairros em Marseille, Lyon ou Paris.”

Diretor do Genius França, Guillaume Simonin concorda. “Alguns rappers e jogadores vem das mesmas cidades ou dos mesmos bairros, isso os aproxima”, diz ele. “O futebol e o rap tocam, antes de tudo, a juventude dos nossos dias e algumas vezes os rappers e os artistas tem a mesma idade, o mesmo interesse.”

Ambos são, como no Brasil, os lugares mais altos da sociedade para alguns desses jovens. “O sonho mais acessível é o esporte e a música porque é aí onde há mais representatividade”, explica Mougeot. “O garoto sabe que pode virar um rapper porque é algo que vem dos bairros populares, é algo que pertence a ele, entre aspas, e no esporte você pode ser Sissoko, Matuidi, etc.”

Talvez mais querido que a seleção da Islândia, MHD era entregador de pizzas antes de chegar ao sucesso. Em entrevista à VICE Canadá, ele diz: “Quem conhece minha história pode falar: ‘se ele conseguiu, eu também posso'”.

Na capa do seu primeiro disco, o rapper exibe as cores das bandeiras do Senegal, de onde vem sua mãe, e da França, país onde nasceu. Uma história de miscigenação que se repete nos campos europeus: o algoz português da seleção francesa na final da Eurocopa, Éder, nasceu em Guiné-Bissau.


Matéria originalmente publicada em julho de 2016 na VICE Brasil.

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