O povo gosta é da aparelhagem

A estética da fome, expressão adorada entre 10 de 10 intelectuais. Uns para criticar, outros para glorificar. Pobreza sempre rende algo para arte, na forma mais capitalista e mais ars gratia ars do termo render. E quando o pobre faz arte? A rentabilidade é questionável, novamente. Desde o século passado inquestiona-se, no entanto, a presença da tecnologia nos produtos que surgem do gueto. A técnica na fome, que atinge níveis esfaimados há pouco tempo.

Venho mastigando essa história faz um tempo. Desde o Theremin e seus congêneres, a música namora com o acústico e o eletrônico. Se o transistores e soldas facilitaram a vida do músico ou se piorou a qualidade da música são discussões para outros posts. Se o piano de cauda é tão disseminado quanto o teclado é um fato desse post. Na explosão urbana da virada do século o tamanho já era limitante para as famílias grandes em apartamentos pequenos. O rádio também cumpria bem a função do entretenimento audível. À mesma época a indução eletromagnética já era menos precária e o semi-acústico virava, enfim, o elétrico, junto dos sintetizadores. O miúdo dos componentes eletrônicos servia também para aumentar a intensidade do volume. E temos amplificadores na linha de produção.

Quando a história é demais o leitor desconfia, então vamos pular pra parte que interessa. Como tudo que vem do norte chega no sul, os elétricos todos aterrisaram nos subdesenvolvidos. O caso mais expressivo é o da Jamaica. A praia privada estadunidense se viu invadida por caixas de som que reproduziam, nos devidos moldes, o american way of life. Não sei quando, mas resolveram empilhar os alto-falantes e habemus soundsystem. Nada subversivo, no contexto, até o momento em que o R&B não chega mais às antenas jamaicanas. Precisavam de algo dali, autóctone. Rumba, mambo, calipso, mento já existiam, mas eram o folk das ilhas caribenhas. E folk é aquela coisa… um cara, um violão e uns ouvindo. Reproduzir discos da música negra americana já era antiquado. E aí surge um figura de nome Coxsone Dodd com a idéia de criar um estúdio ali mesmo em Kingston.  Daí pra frente é ska, rocksteady, reggae e o resto é artigo da Wikipédia.

Ora, um estúdio, item básico para mixagens e gravações. Onde todos os sonhos do cancioneiro ganham vibrações reais. A fábrica dos álbuns. Todo e qualquer álbum, é fato. Não foi por causa do estúdio que surgiu Bob Marley. Mas foi por causa do estúdio e do Bob Marley (não, dele não, mas do reggae, sim) que surgiria o dub. O dub, ou o estúdio instrumentalizado. Enfiaram metalinguagem na produção musical só por conta da tecnologia. E todo e qualquer dub não surgiram sem mesas de som, canais, equalizadores, etc. Imaginar desacelerações das BPM, his, mids, lows, echoes e reverbs sem um estúdio é impossível da mesma maneira que o é pensar o dub fora do terreno fértil que é a Jamaica. Lee Perry não me deixa mentir.

As mesas de som seguiram o caminho natural da tecnologia e diminuíram, viraram pickups e mixers. Nos EUA, se houvesse dancehalls eles virariam danceclubs, mesmo caminho dos bares de jazz suburbanos, povoados outrora pelas bandas. No Bronx, outro jamaicano tomava a cena, um senhor Kool Herc. O domínio do maquinário lhe valeu técnicas de transição e remixes ao vivo das pedradas funks de James Brown e os renegados da Motown. Sem o aparelho, nada de Grandmaster Flash ou Afrika Bambaata, que dirá de hip hop. A técnica, aí de novo, foi vetor tão determinante para o movimento quanto o contexto social e artístico, embora esses últimos tenham refletido com maior força.

O interessante é observar a velocidade desses processos e a facilidade da metamorfose. A história conta com exemplos vastos de elementos, físicos ou não, que vão de um estrato a outro da sociedade. São os casos dos dominados copiando os dominadores ou da livre adaptação do status vigente para formas mais condizentes. Um penteado, uma roupa ou um trejeito atravessam as pessoas rapidamente. Por outro lado, uma obra de arte demorou para sair do museu e das academias de belas artes (será que já saiu, efetivamente?), uma câmera custou (e ainda custa) muito caro, sem falar do já falado piano de cauda, para finalizar os exemplos.

Considerando que a tecnologia quase sempre é de alto custo, isto é, para quem pode e não para quem quer, há aí um impedimento claro não fosse a evolução veloz dos aparelhos e suas leis de Moore. O novo torna-se obsoleto, e o obsoleto é queima de estoque, tá barato. O aprendizado é outro ponto. Sem tocar na questão da complexidade, não há um didatismo secular por trás dos aparelhos tecnológicos, tão novos quanto os movimentos que os circundam. Menos secular ainda é a gambiarra, a transformação de um em outro. No mundo da elétrica um toca-discos deixa de ser um reprodutor na mão de um ouvinte e passa a ser uma plataforma de criação para algum DJ — não todos.

A ferro e fogo, no entanto, criar música eletrônica — tentei evitar o termo durante todo o texto, mas não deu — significa modificar/juntar/editar algum som pré-existente. Mais do que os equipamentos, contudo, que mudaram desde Dodd ou Herc, mudou o caminho. E isso, sim, é mais relevante que qualquer avanço tecnológico. Se outrora as composições tinham como base os vinis do mainstream, hoje elas vem com ruídos do MSN ou o conhecido tamborzão. Nas favelas cariocas é o funk que toca e faz a soundsystem da juventude, e isso não é novidade pra ninguém. Novidade é, sem dúvida, o fato de a tecnologia ser não só apreendida e transformada, mas regurgitada. Para muitos um escarro em forma de letras de conotação sexual ou criminosa, alienação e a “música ruim”. Para outros tantos, um sopro animador em festas e ditador de parte considerável da produção eletrônica atual — M.I.A e seu fiel escudeiro Diplo, só pra citar dois. E nem mencionei o tecnomelody, o brega e tantas outras manifestações. De um jeito ou de outro, não tem como não perceber que ainda tem gente com fome, mas agora, também servindo os pratos.

Favela on Blast_Out everywhere in July. from Leandro HBL on Vimeo.

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