O que esperar de James Blake no Sónar São Paulo

A essa hora James Blake está em São Paulo, preparando-se para seu show. O músico deve ter se visto em meio a muito barulho, ruídos e poluição sonora de todo o tipo. Coisa de cidade grande, como Londres, de onde vem o artista e Barcelona, de onde vem o festival Sónar. Em outubro passado, também vi Blake em uma cidade grande. O show, em Paris, pode servir de prévia sobre o que esperar da apresentação do britânico amanhã na capital paulista — ou como um convite de última hora.

Na ocasião, o cara estava entre um turbilhão que acabava e um turbilhão que começava. Algo comum no meio artístico, o primeiro era o hype em cima do seu primeiro álbum, homônimo, lançado em fevereiro. De blogueiros do Gorilla vs Bear a jornalistas da Billboard, muita gente falou sobre Blake. Não à toa ele era o nome principal da noite. E se o mencionavam, certeza que a palavra dubstep vinha junto.

O termo, mais desconhecido até então, ganhou a boca e os tuítes do povo. Skrillex foi o profeta que levou o dubstep do underground londrino, onde nasceu há uns bons dez anos, até festivais de grande porte, como o SWSX, nos EUA, e o Lollapallooza, no Brasil. Do LMFAO a Britney Spears, todos queriam um pouco do dubstep, mesmo que poucos soubesse direito o que era aquilo.

Blake é um dos que sabem. Por isso mesmo, ele consegue se distanciar da ânsia dos experimentalistas e da gana dos novos fãs. Dos turbilhões que o envolviam, o artista aproveita o turbilhão do próprio dubstep: as texturas graves, as oscilações de baixa frequência, o tempo sincopado. O resto não está na bula. Ou melhor, certamente está, mas sobre o palco o artista soa original e seguro do que faz, como se fosse ele mesmo e mais ninguém.

Que fique claro, contudo, que ele não toca sozinho. Blake vem sustentado pelo guitarrista Rob McAndrews e do baterista Ben Assiter. A dupla faz a cozinha da cozinha, uma vez que o som do britânico cria camadas potentes por si só, e não por ataques ou truques de volume, caso daquele clímax bem conhecido em gente como David Guetta ou até Fatboy Slim.

O artista, ao vivo, mostra rapidamente o domínio que tem sobre seus instrumentos -– um teclado, um bocado de sintetizadores e, arrisco, até algum tipo de vocoder. O controle chega ao estágio em que a música eletrônica soa orgânica, uma ótima pedida pra quem tem aversão a qualquer coisa que seja mais tecnológica. Blake pontua teclas em contratempo e molda sua voz enquanto desenvolve músicas como Unluck, primeira faixa de seu primeiro álbum, ou a excelente versão de “Limit to your Love”, da Feist.

Na melancólica “I Never Learnt to Share”, surge outra face de Blake. Menos protagonista e mais bastidores, o também produtor busca variações rítmicas sem exageros, modifica os arranjos com calma. Algo para quem fez a lição de casa quando estudou na Goldsmiths, escola de artes da Universidade de Londres onde ele estudou.

A cidade grande e barulhenta de onde veio o dubstep não afeta o artista como fez no mainstream do Skrillex ou como fizera aos primeiros DJs do gênero. A música do britânico trabalha em baixa frequência ao mesmo tempo que preenche grandes espaços. Minimalista e sensorial, o som de Blake melhora ao vivo e vai à frente do primeiro álbum, uma pista de que há muito a ser explorado por ele. Seja pelas referências eletrônicas, que passam até pelo sound design, ou pelas referências de jazz e soul, James Blake consegue fazer diferente no disco e ao vivo. A ressaca do dubstep chegou, mais um turbilhão a caminho.

Facebooktwitterredditpinterestmail
[ssba]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *