O que você não sabe sobre o Harlem Shake

– A música Harlem Shake foi lançada em maio de 2012. A faixa abusa das frequências baixas e das sirenes. Hipnótica e sólida, não é o melhor que o estilo tem a oferecer. Nem de longe é o que o título diz.

– O Harlem Shake é trap. O trap está na lista das tendências musicais do ano que rolou aqui no começo de janeiro.

– Curto e grosso, o trap é (sub)grave cortado por batidas ásperas de caixas e samples agudos ou metalizados. Vozes em tempos quebrados ou versos criminosos também dão o tom. Clímax e quedas fecham o círculo. Na lista de venenos musicais estaria ali entre os hipnóticos e os narcóticos.

– Trap, aliás, é uma gíria da área metropolitana de Atlanta (EUA) que significa biqueira. A cidade é relevante para o gênero porque saiu de lá a base hip hop de sopros e rufadas de caixa — característica básica do som. No seu início, o trap era essencialmente rap gangsta.

– Embora já tenha uns dez anos, essa última forma do trap é resultado da briga entre brostep, house music pastiche e hip hop, sucessos recentes na cultura da Electronic Dance Music (EDM). Foi pegando carona nesse trem que o gênero tomou de assalto os Estados Unidos.

– Baauer é um dos produtores/DJs dessa viagem. Ele compôs o Harlem Shake, música que deu origem ao meme. Se ele pegar carona nesse outro trem, o do hit global, certamente será o Skrillex do trap. Para o bem dele e para o mal de alguns ouvidos.

– “Trap é o novo dubstep”, dizem por aí. Isso acontece porque o estilo tem apelo. É doutrinador com suas repetições certeiras. Cola na pista com suas ondas sonoras largas que chegam aos ouvidos e ao corpo. Cai fácil como remix para músicas já conhecidas — mesmo que não tenham versões a capella, o que facilita o trabalho do produtor na composição. Mais que isso tudo, é um contraste sonoro ao excesso de barulho que o pop eletrificado vem tentando.

– Por todas essas razões vale ir além da Harlem Shake. A dupla Flosstradamus, de Chicago, suaviza o grave em prol de marcações mais frenéticas, quase um hardcore britânico. RL Grime dá o tom mais EDM às batidas adequadas a rimas e versos. O duo TNGHT (Canadá e Inglaterra) conseguiu refinar a sujeira própria dessas baixas sonoridades. Até o Diplo se arriscou nessa. Em tempo: ele é o dono do MadDecent, selo do Baauer.

– Também tem o Rustie. Jovem produtor criado no UK bass, foi ele o primeiro a dar um empurrão relevante à faixa-meme. Ela apareceu em um set que ele fez para o mais célebre programa de eletrônica do mundo, o Essential Mix, da BBC Radio One. Na lista de músicas o título aparece como Harlam Shake.

– Aqui no Brasil, o trap vem tomando corpo na figura respeitável do DJ Zegon com seu Tropkillaz. Vale ouvir.

– Trap explicado, é preciso dizer que a música Harlem Shake e o meme Harlem Shake não têm nada a ver com o Harlem Shake.

– Originalmente, esse é o nome de um passo de dança criado no Harlem, bairro negro da periferia de Nova Iorque nascedouro do Hip Hop. Também berço de Marcus Garvey Jr., Sammy Davis Jr., Tito Puentes, Nina Simone, Jimmy Castor, Alicia Keys, Puff Daddy, A$AP Rocky. Até o Shaft (na foto) andou por lá. Tem muito valor.

– O passo consiste em mexer os ombros e braços como se as pernas estivessem presas ao chão. O criador foi Al B, morador do Harlem, evidentemente. “Era o que as múmias faziam. Elas estavam todas atadas e enfaixadas e não podiam se mexer muito. Tudo que podiam fazer era o Harlem Shake”, diz o cara. Parece fácil, mas precisa ter maestria pra fazê-lo.

– Então já são dois excelentes motivo pra gente nascida e criada por lá não gostar da brincadeira mundial que se tem feito com o Harlem Shake: a relação enganosa com o bairro e a deturpação da coreografia. Desrespeito, ignorância, difamação e outras razões são lembradas pelos próprios moradores do lugar.

– Azealia Banks, também do Harlem, não entra ala dos conterrâneos insatisfeitos já que fez sua própria versão do Harlem Shake.

– Quem não gostou da ideia foi o produtor Baauer. Deu treta entre os dois. Não que a moça não esteja acostumada a confusões.

– Outros que andam insatisfeitos com a história toda são a turba hipsterpunkrajneesh. A polícia do meme tomou as dores dos habitantes do Harlem. Compreensível até certo ponto, uma vez que a zoação mexe com questões identitárias de um bairro central em questões culturais e raciais na história.

– Incompreensível até incertos pontos, porque os defensores da cultura underground norte-americana não têm muita piedade com o que vem de fora — entenda-se: o que não é de língua inglesa. O Gangnam Style conta a história. À parte música e coreografia, ninguém dava trela para o quê a letra representa. A macarena 2012 foi uma grande brincadeira sobre um país e pouco se disse sobre a identidade da Coreia do Sul nisso tudo. Dois guetos, dois memes e duas medidas.

– O blogueiro que aqui escreve pensa que o Harlem Shake é, apenas, sem graça. Mesmo porque um teco mundo que acha ele engraçado não deve saber da existência do Harlem — uma pena –, o que tira da comunidade uma dose de preconceitos a primeiro momento. É tipo istendápi cômedi.

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