O samba é carne de primeira

Não vou pular carnaval. Não por falta de vontade, mas por falta de carne. Carnaval, diz o nome, é a festa da carne e aqui por esses cantos da Europa a carne é cara. Não bastassem os custos, ela vem cheia de etiquetas sobre procedência, origem, saúde e, quiçá, nome do boi. É o medo da fantasia da vaca louca e da gripe aviária, outrora tendência na gôndola dos refrigerados e temperados.

Na gôndola dos churrascos e (psico)trópicos sobra carne e música. Fiquei sabendo que, nesse ano, tem até música para não fazerem xixi na rua — quero ver cantar com a bexiga explodindo e sem algum banheiro público por perto. No Rio de Janeiro a lista de blocos em 2012 vai de Amigos do insiraumnomeaqui a Ulálá Balancê (algum bloco com Z?). Em Recifolinda o truque do alfabeto também vale para os ritmos entoados nas ladeiras, de Cavalo Marinho a Maracatu Psicodélico. E nessa brincadeira de fim de mundo até São Paulo me pareceu com mais blocos e menos blocada.

O resumo da ópera da folia é que todo mundo ferve, todo mundo cria — e nada esfria, nada se descria. Por isso muito me espanta ver o músico Henrique Cazes levantar essa opinião em seu artigo para O Globo. Ver perigo em adaptações como aquelas feitas pelo “Bloco do Sgt. Pimenta” é desacreditar do poder do samba. Quem canta a bola é ele mesmo, ao lembrar das inúmeras fases pelas quais o ritmo já passou. E olha ele aí, vivo e de partido alto.

Claro. Há uma distância inegável entre Pixinguinha e o trompetista que toca rock em ritmo de marchinha, em termos históricos e criativos. Mas, ora, havia uma distância entre a polca e o que hoje conhecemos como chorinho. E obrigado à flauta de Pixinguinha que percorreu esse caminho por nós. O sopro dele deve muito a seu metiê: meio suburbano, meio burguês, meio popular, meio acadêmico, meio carioca, meio internacional. Foram influências como essas que respingaram em um samba ainda novato da vida, pouco malandro e mais africano que brasileiro.

A bossa nova e sua sabida influência do jazz recontam a história do samba que muda, mas segue o balanço.

Trazer novas roupagens para a música popular brasileira não é problema. Trazer gente que não entende de música,  muito menos. Numa polirritmia dessas sempre sai alguém que vai atrás das raízes ou que adiciona algo valoroso ao ritmo.

Vem todo mundo, já diria Catra, e vale tudo, já diria Tim Maia. É carnaval, a festa da carne. Cada um vem e se veste como quer. Deixe Ringo cair no samba de gringo e traz o Brown pro samba do Criolo doido.  O negócio é aumentar as possibilidades de criação e não fazer da criação uma possibilidade de negócio. Aí sim é problema. Alguém lembra de algum samba-enredo patrocinado? Espero que não. Quando entrarmos nessa, aí sim, o samba terá virado carne de segunda.

(Em tempo: ouvi dizer ao tuíte miúdo que o carnaval de Salvador foi vendido e por conta disso a polícia da capital baiana entrou em greve com faixas “Volta Dodô e Osmar!”; carece de fontes)

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