O streaming ainda demora a chegar no 100% por aqui

Deu no Link nesta sexta:

Apple e Google na briga pela música online

A Apple terminou o desenvolvimento de um serviço de música online e deve lançá-lo antes de o Google fazer a estreia de um serviço semelhante — projeto que está parado — , segundo pessoas familiarizadas com os planos de ambas as empresas.

A despeito do clássico migué do hard news “pessoas familiarizadas com os planos”, típico principalmente em tecnologia, vamos ao que (me) interessa: o streaming.

Também deu no Link da semana passada uma matéria bacana sobre o futuro do conteúdo como serviço e não como bem, ainda que digital. Alguns pontos levantados no texto são relevantes ao assunto, tais como a relação entre gravadoras e sites de streaming (Spotify, Last.fm, Pandora), futuro do mercado, tipos de serviço, entre outros.

O que me chamou a atenção são pontos não comentado, talvez por conta do espaço. São questões menores, mas que terão relevância com o peso que vem ganhando esse tipo de serviço.

Estrutura

A primeira é a necessidade de estrutura. No mesmo Link, desta vez o da semana passada, há uma reportagem sobre a banda larga no Brasil. Dois dados chamam atenção. O primeiro, de que somos o 61º país mais conectado entre outros 133, segundo o Fórum Econômico Mundial. A posição, que já não é privilegiada, perde o ouro que restava quando vemos que estamos à frente de uma grande parcela de países latino-americanos, africanos e do leste europeu — países onde o Spotify, o Pandora e o Last.fm não têm vasto mercado.

Outro dado interessante é o preço médio pago pela banda larga de 1 Mbps. Segundo a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), são quase 70 reais para ter essa velocidade. O preço já é altíssimo para os padrões brasileiros, em especial da classe C, uma base larga do país. Se o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga) vingar, o preço deve cair, mas ainda estaremos em um estágio insuficiente para o streaming em larga escala, principalmente para o vídeo.

Numa conversa que tive com o gerente de produtos da Philips, Marcelo Natali, ele disse que 2 Mbps era a velocidade recomendável  para o streaming nas novas TVs conectadas da marca, e o valor não deve variar para outros fabricantes. E nem precisamos chegar tão longe nos eletrônicos para ver o entrave que se avizinha. Me diz alguém que goste de esperar carregar um vídeo no Youtube para, só depois de um tempo, poder vê-lo? Isso não é streaming. É no máximo um download on demand e é especialidade na conexão de 1 Mbps.

Qualidade e quantidade

Ora, argumentariam aqui que para música não é preciso tantos dados por segundo. É bem verdade, mas aí faço as vezes de super-herói e defenderei os fracos e os oprimidos, a minoria enfim.

O MP3, amigos, já é comprimido. Sem novidade até aí. No streaming a compressão chega a uma coisa sub-atômica (alguém faz um infográfico disso). Uso um serviço chamado Audiogalaxy. O negócio é bacana mesmo: ele indexa todas as músicas que tenho no PC e toca direto no meu smartphone via, adivinhe, streaming.

O problema é quando quero ouvir algumas particularidades da canção. O software só faz a transmissão de músicas em qualidade baixa e quando a transmissão é numa qualidade superior ou de algum formato mais fiel, como FLAC, ele logo avisa que a reprodução pode sofrer falhas. Tudo bem, estamos falando de redes móveis, mas a rede 3G a que tenho acesso alcançou 0,74 Mbps em um teste do instituto DataMaia. A velocidade que a operadora afirma vender é de 1 Mbps. Assim, músicas em alta qualidade são um problema. Vídeos, novamente, nem pensar.

Deixando os filmes de lado — já que, ficou claro, é algo distante que só quero ver na Copa —, existe um último ponto específico da música digital. Quantos discos existem em MP3? Uma trocentena, certamente. Mas quantos não existem? Se o mercado de discos ainda hoje faz sucesso é por causa da sua qualidade, discutida acima, e quantidade. Tem coisa que não tem em MP3. E, seguindo a lógica, tem coisa que não tem em streaming.

Navegue pelo Grooveshark, o queridinho de muitos operários do computador. Busque por uma senhora chamada Aracy de Almeida. Algumas canções vão aparecer, mas o disco em que ela canta Noel Rosa não está na lista. Preciosismo à parte, estão outras músicas dela ali. Mas preciosismo faz parte, ainda mais quando falamos de boa parte da população que foge ao mainstream ou atual e garimpa coisas nas redes de sebos ou sites — oi, tudo bom?

Pode ser questão de tempo até aparecer a canção Conversa de Botequim na voz da sambista no Grooveshark. Também pode ser questão de tempo até que a música surja para streaming em ótima qualidade. E, por fim, também pode ser questão de tempo para que um computador aqui em São Paulo e um computador em alguma cidadezinha do Amazonas consiga tocar a música da dona Aracy com ótima qualidade, quem sabe numa grande festa onde um MP3 não satisfaz. São todas questões que podem ser, mas uma questão que certamente já é: quanto tempo isso vai levar? Um bocado, garanto.

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One thought on “O streaming ainda demora a chegar no 100% por aqui”

  1. Eu ainda acho que uma série de códigos binários dificilmente vai se equiparar com os sulcos físicos de um bolachão preto. Mas sei la, o capeta tá aí trazendo tanta tecnologia, vai sabê!

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