O vinho da classe média azedou

Não sou habitué de manifestação. Já li muito sobre manifestações menos ou mais populares: inconfidência mineira, revolta dos mascates, revolução praiera, comuna de paris, revolução bolchevique, guerra civil espanhola, revolução sandinista, maio de 1968, revolução de veludo, revolução dos cravos, diretas já. Foram muitos livros a respeito e pouca presença nelas. Não sou habitué de manifestação. Filho da classe média.

Filho da classe média usa mais de uma língua quando se expressa. Filho da classe média tem vinte e poucos anos como a música do Fábio Júnior cantada pelos Raimundos (ou seria a do Belchior cantada pelos Los Hermanos?). Filho da classe média tem mais semestres de estudo que a classe média. Filho da classe média faz uma ou outra viagem. Filho da classe média usa computador com internet banda larga pra acessar as redes sociais. Filho da classe média adora vinagre. Filho da classe média, se puder, compra vinagre balsâmico.

Se puder.

Seu outro idioma é um inglês travoso na boca. Sua idade pode não corresponder a seu gosto musical. Seu emprego divide espaço com os anos de estudo que, afinal, são numa universidade — quiçá gratuita, oxalá pública. Sua viagem é uma visita à vó no litoral, aos pais no interior ou às tias nas bordas da região metropolitana. Seu computador de gerações passadas pode não ser muito eficiente na conexão com a rede que acessa. Seu vinagre é branco ou marrom em garrafas de plástico.

Filho da classe média gosta de vinagre.

Filho da classe média, segundo o último relatório da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, vive numa família cuja renda média mensal vai de R$ 1540 a R$ 4845. Ainda segundo o levantamento federal, capitaneado pela “Comissão para Definição da Classe Média no Brasil”, filho da classe média vive em grupos familiares que representam mais de metade do total brasileiro desde 2009.

E filho da classe média adora vinagre.

Não o vinagre balsâmico. Esse aí pode ultrapassar os cem reais. Esse aí é feito com vinho tinto passível de receber todos os paparicos da bebida, de envelhecimento em barris a tratamento em temperaturas várias. Não bastando, esse aí carrega o bendito nome. Bálsamo conserva da putrefação cadavérica, cheira à perfume e abranda os ânimos de quem o inala.

Mas filho da classe média ama vinagre branco ou marrom em garrafas de plástico!

Esse nada tem que ver com mortes, fragrâncias ou falta de ânimo. Esse é sua única proteção contra os efeitos do gás lacrimogêneo — muito embora a Associação Nacional das Indústrias de Vinagre não aponte tal função em seu site. O vinagre em água borrado no pano é o escudo fisiológico ante a violência nacional estatizada — até segunda ordem de privatização. O títere dessa instituição? As forças vigilantes brasileiras cujo destaque óbvio ululante é a PM.

Na quinta-feira, 13, a única polícia militar do mundo fez chover bombas e balas por sobre manifestantes que se levantavam na cidade de São Paulo. A rua da Consolação, sob a rufada de explosões, virou corredor polonês. Alto lá! Alto lá! porque num corredor se corre. Alto lá! atacava o braço armado mais nefasto dessa instituição travestida numa farda fascista que, como corporação, reproduz ordens e discursos esvaziados em cadeia. Parados em nome da lei!

Desde a Maria Antônia — a mesma que vira outra batalha há algumas décadas — a tropa de choque encurralava manifestantes em quadras de nomes plácidos: Bela Cintra, Matias Aires, Paulista, Angélica. Acuava quem quisesse falar, gritar, se esgoelar contra o status quo. Recuava o direito à liberdade de expressão tão propalado na democracia que mais parece ser os outros. Cu. De deixar com o cu na mão. Ninguém é super-heroi para enfrentar essa polícia de peito aberto homem de aço. Sozinho, certamente não.

Ó, que filho da classe média teve de baforar vinagre que nem moleque de rua bafora cola.

Mas filho da classe média não é moleque de rua. Moleque de rua só algum deus sabe o que tem. Filho da classe média, repito, tem livros, smartphone, tempo, oportunidades, direitos e deveres. E filho da classe média deveria se importar com esses pivetes? Digo mais: deveria se importar com vinte centavos? Não anda nem de ônibus. Deveria lá fazer bagunça por causa desses trocados? Me poupe.

Ora, se há livros lidos, que a teoria seja posta à prova. Se há smartphones nas mãos, que eles gravem o que se passa à frente. Se há tempo de sobra, que ele seja o resto que faltava para protestar. Não se trata de capricho romântico. Existe uma obrigação moral e solidária em se voltar contra o Estado que acaçapa seus contribuintes, nos impostos ou no transporte público atravancado das metrópoles. A obrigatoriedade tácita nasce em motivos que vão dos mais pragmáticos aos mais idealizados.

Essa ética que rompe o cotidiano engrena a ressurreição do banditismo há muito esquecido: a sedição. Ela é gregária ao passo em que é repelida pelas forças governamentais cujas ações desmedidas já são leit-motif das periferias. Tal setor — incansavelmente afastado das decisões e benesses da ágora política e vítima de um sistema esgotador e compulsório — pode se ver naqueles que pisam o asfalto com palavras e bandeiras de (des)ordem.

Esse espelho é tão importante quanto a ausência de uma ideologia esclarecedora no motim, ainda que permeiem ideologias e panfletismos. Se a reação policial é, de um lado, ponta de um processo violador perpetrado pelo Estado, a revolta pelos vinte centavos é, de outro, o estopim daqueles que não aguentam mais sentir tais violências sociais. Explode, portanto, a identificação horizontal regida pelas aspirações comuns do povo.

À reboque, embora devesse ser o rebocador, a imprensa sinaliza retomar seu papel primeiro na peça como mediadora entre os poderes num ringue onde a vontade popular deveria ser a única privilegiada. O tempo dirá o quanto esse resgate bebe na demagogia para venda de exemplares ou no ataque às liberdades e à integridade de jornalistas que, vendo-se achacados pelo Estado e observados pelo povo, nada podiam fazer senão retirar as mordaças impostas por um modelo de negócios que já caduca na sua força-motriz de publicidade, interesses e lucro final.

E se tem operários-escribas colocando seu insalubre emprego em jogo; se tem gente que se identifica com a causa mas não consegue ou não pode se manifestar; se tem quem precarize o verdadeiro direito de ir e vir e ainda queira torná-lo mais caro; se tem quem reprima violentamente protestos pacíficos; se tem um aparato estatal moribundo que não corresponde aos anseios de sua população, filho da classe média, quê tem você?

Tem mais é que sair pra rua. Engrossar o caldo. Fazer entornar. Com vinagre e tudo. Parar a cidade que não para. Sem parar. Porque não tem só você, filho da classe média. Tem estudante (,) trabalhador (,) universitário (,) desempregado (,) incomodado (,) cidadão. Sem artigo de gênero. Sem definição. Sem vírgulas. Parando sem parar.

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