O zagueiro do Jorge Ben

De todas as palavras, as construções e as expressões mais difíceis e menos poéticas que o Jorge Ben usa como tema de suas músicas, para mim, zagueiro é a mais sensacional. O zagueiro é o cara mais amaldiçoado do campo.

O zagueiro nem de longe tem o brilho do atacante, sempre ele, que faz os gols. O ponta de lança.
Também não chega perto de um meiocampista que pensa e arma a jogada. O lampejo do passe perfeito.

Um lateral, nesse calculado futebol atual, pode até ficar tão por baixo quanto um zagueiro. Mas um lateral pode comer pelas beiradas e aí temos coisas como “Maicon salvou a seleção”.

No mesmo nível do zagueiro, talvez de um goleiro. Só que é sabido: o goleiro tem dias de maldição na mesma proporção que a intensidade da glória de um dia.

E o zagueiro só tem a glória naquele seu chutão fenomenal. Quando muito. Tirando isso ele consegue, ao menos, virar parágrafo de análises monótonas sobre como manteve seu nível e quantos gols — ou momentos de brilho — pôde evitar.

Ao fim da vida futebolística, enfim, ele pode ser digno de placa de museu por “serviços prestados”. Todavia, não ganha homenagem em estádio ou vira nome de estádio — nome de rua, quem sabe?

Por isso digo que zagueiro é o melhor tema incomum de Jorge Ben. O desgraçado guarda-metas que não as guarda com as mãos! É com ele que o Bidu explora cada metro quadrado de adjetivo e qualidade possível. E acerta em todas.

O zagueiro tem de ser sutil e elegante. Confiante e malandro. Rápido e rasteiro ou vai jogando a bola pro mato. Que infeliz.

Não tem pra Spyro Gyra, Jesualda, Camisa 10, Trimegisto nem pra Charles. Vai zagueiro!

[ssba]

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