Orfeu, Rodin, Vinícius e Arcade Fire

Na matemática do Youtube, o número “mais de 301 visualizações” significa “visualizações pra cacete”. O novo disco do Arcade Fire, Reflektor, já bateu a marca poucas horas depois de chegar à rede.

Em vez de divulgar o álbum em faixas separadas, em clipes, músicas com letras (a febre dos lyric videos) ou qualquer outra ideia, o grupo foi pelo fácil: sobrepor as canções, uma atrás da outra, ao filme “Orfeu Negro”, clássico de 1959 escrito por Vinícius de Moraes e musicado por Tom Jobim.

Para as bandas de cá o encontro já valeria a pauta, especialmente pelo centenário do poetinha (lembrado aqui há um bom tempo), mas as entrelinhas do fato são mais interessantes. A escolha do filme não é aleatória.

A capa do novo disco tem uma foto da estátua Orfeu e Eurídice, de Rodin. A obra foi inspirada na história de mesmo nome. Casado com a bela Eurídice, Orfeu não aceita a morte de sua amada e parte em direção ao mundo dos mortos para resgatá-la. Sua saga só é completa por conta de sua música, capaz de convencer até Hades — aquele de cabelo azul do desenho — a libertar a jovem.

A única condição do deus dos mortos é que Orfeu não olhe para Eurídice até que suba à superfície da Terra. Embora tente, como mostra a estátua, Orfeu falha. Eurídice desaparece.

Exímio ouvinte, Orfeu fora traído pela visão. Quase como quem não repara (ou quem repara demais) nos vídeos ou nas fotos.
O resto é som e frenesi hipster.

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