Orquestra Contemporânea de Olinda é para lembrar, dançar e criar

Gilú disse que a escolha por Orquestra foi simplesmente porque a banda tinha muita gente. De fato, o time de futebol reunido pelo percussionista Gilson do Amaral, ou simplesmente Gilú, faz número em cima de um palco. Mas o título de uma formação da música clássica é adequado à Orquestra Contemporânea de Olinda, um dos grupos mais criativos da atual música brasileira.

O nome não cai como uma luva por causa da formação clássica em si mesma. A ela se opõe a formação popular do grupo e dos seus integrantes. Ele surgiu a partir do Grêmio Musical Henrique Dias, primeira escola gratuita de música de Olinda, fundada em 1954. “Sempre quis fazer alguma coisa com os músicos de lá, de onde também vim”, afirma Gilú.

Com a convocação em 2007, a banda começou os trabalhos de maneira nada orquestrada. O primeiro álbum, homônimo, saiu rapidamente, com uma gravação feita para colocar o som na rua e a banda na estrada. Dito e feito, o disco rendeu turnês no Brasil e no exterior e uma indicação ao Grammy em 2009.

Passados quatro anos o processo de composição continuou o mesmo — com resultados diversos. “A gente se junta, faz uma jam, a letra vem junto”, conta Juliano Holanda, guitarrista. O não-método de criação é reflexo do caldeirão de referências da Orquestra. Para ela, o Coco, a Ciranda, o Caboclinho e o Frevo representam não só influências claras como também manifestações artísticas sem caminho definido, que nascem, caem no gosto do povo, ganham gerações e, enfim, vão se formalizar.

Uma vez no papel, no entanto, os acordes não são amarras. “Sempre tento puxar coisas novas, na parte rítmica principalmente”, conta Gilú. O detalhe fica evidente com a banda em palco. A apresentação no Sesc Consolação no último sábado, durante a Virada Cultural, trouxe à tona elementos de uma Orquestra que não cabe em apenas um disco.

Localizado à frente e no centro — e não ao fundo, como na disposição da orquestra erudita — Gilú explora a percurssão em atabaques e pandeiro preenchendo com requinte canções como “Tá Falado”. Variando entre os compassos, o percussionista por vezes conversa com o baterista Raphael Beltrão dobrando os tempos com peso e independência.

Se esse rebuscamento parece mais natural aos batuques, uma vez que no bojo da Orquestra estão ritmos de forte rastro africano, Juliano Holanda faz questão de trazê-lo para a melodia — sem deixa-la hermética ou menos dançante. “Temos uma preocupação nesses aspectos, na escolha do repertório e nas nossas composições”, lembra ele.

Holando e os metais comandados pelo maestro Ivan do Espírito Santo vão tecendo contrapontos e valorizando as camadas de som. Em palco isso fica evidente na canção “Joga do Peito”, tocada pouco depois da metade do show, na qual conversam guitarra, tuba, saxofone e trombone.

A faixa é uma das mais calmas do primeiro álbum da banda. Ainda assim, ela não deixou de convidar para dançar a todos que assistiam à apresentação. Com uma versão excepcional da já excepcional versão dos Skatalites para “Tema de James Bond”, Gilú e banda preparam o terreno para o carnaval que já passou mas quer voltar.

Começam os frevos e as pessoas vão limpando o chão enquanto pulam com a banda. Vassourinhas, sempre ela, é o auge. Um a um o grande grupo vai saindo do palco. Para lembrar ficam duas coisas: a promessa de um novo álbum até o fim de 2011, como disseram Gilú e Holanda, e o eco ressoando os ritmos tradicionais e as canções originais da Orquestra Contemporânea de Olinda.

Fotos minhas e da @tecaperosa

Facebooktwitterredditpinterestmail
[ssba]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *