Os cidadãos goianienses do mundo

Diego e o Sindicato

O município de Goiânia surgiu com certidão de nascimento e sem carteira de identificação. Quem já esteve na capital planejada de Goiás sabe que entre o asfalto do bairro e o barro da rua há uma dúvida entre a ruralidade e a urbanidade — embora o caminho aponte em muito para prédios, carros e fumaça. Se nem a cidade se define, quem são Diego e o Sindicato para fazê-lo? “Não existe a obrigação de ficar fechado numa proposta só”, diz o vocalista da banda que faz do questionamento o caminho na sua musicalidade.

O trajeto de Diego de Moraes não começou na capital. Ele nasceu em Cuiabá, mas vive há um bom tempo em Senador Canedo. Dali saíram ele, sua irmã, um violão e uma bateria. “Uma versão do White Stripes sem distorção”, diz ele. O projeto causou burburinho em 2006 e meses depois haveria o encontro que culminaria em Diego e o Sindicato. Ou Diego e os Imorais. Ou Diego e os Mendigos. Ou Diego e os Fritos da Terra. Ou qualquer outro nome que viesse à mente dos músicos nos festivais que participavam. Eventos como o Goiana Noise, Bananada ou Goiânia Canto de Ouro vêm projetando a cena goianense que, se não é necessariamente nova, tem ganhado mais força. “Agora estão surgindo novos espaços na cidade”, afirma o guitarrista do Sindicato, Eduardo Kolody.

Há quem pense que essa nova música tem de lutar na terra do sertanejo e do stoner rock, gêneros sempre relacionados à Goiânia, segundo Diego. O ditado diz, contudo, “quando um não quer, dois não brigam”. Nem vários. Por isso a postura que outrora contestava hoje absorve esse regionalismo. Tal qual uma antropofagia ou uma tropicalização, mas sem título e panfletismo — e olha que estamos falando de um sindicato. “Gostamos do gesto, não existe um manifesto”. A operação fica evidente na música Amigo, que entrou na coletânea Oi! A Nova Música Brasileira. O disco, lançado ano passado, tem boa parte da mais recente música brasileira, essa que infelizmente toca em poucas rádios e felizmente trabalha com uma complexidade enorme de temas. Diego e o Sindicato são a única banda goianense do álbum, mas poderiam dividir espaço com a banda Gloom, conterrâneos com quem tocaram no Auditório do Ibirapuera neste sábado.

O show de apenas uma hora mostrou que Goiânia não é suficiente para as duas bandas. Não falo de divulgação ou showbiz, mas novamente da indefinição. Dela vem o toque de New Orleans na canção Bills on Monday ou os metais do Leste Europeu em Menina (com a participação de André Gonzales, do Móveis), ambas da Gloom.  Em Diego e o Sindicato, o caminho pelo não-rótulo flerta, veja só, com um rótulo. O melhor possível, no caso, pois nenhuma viagem é tão incerta quanto a psicodelia. Ela está lá em 69 com suas guitarras fuzzeadas e em Animal Irracional nos sintetizadores tocados por Astronauta Pinguim. Do sul também vem a maior influência da banda, segundo o baterista Hudson Rabelo: Júpiter Maçã. “Um cara gente boa pra caramba”, lembra ele.

Ambas as canções fazem parte do álbum Parte de Nós (Compacto.Rec), lançado ano passado. Diego e o Sindicato divulgarão ele em São Paulo no próximo dia 1/3 no Studio SP e no dia 3/3 no Itaú Cultural. A turnê com o disco continua até o meio do ano e depois começa a gravação do próximo álbum. “Vamos buscar uma unidade maior”, afirma Diego, uma vez que algumas faixas do primeiro CD foram compostas na sua fase de Jack White goianense. Que essa unidade não significa monotonia é indubitável.  Basta ouvir o disco atual, ver os vários projetos paralelos da banda (como a bandas Seven e Pó de Ser) e lembrar da terra deles, a cidade capital entoada no interiorano sertanejo “Ei Goiânia”.

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