Os perigos de tratar arte como serviço

Joseph Mount, mente pensante do Metronomy, uma das melhores bandas da década, disse que não está trabalhando em nada novo por enquanto. O último e excelente disco, English Riviera, saiu em abril de 2011.

E os montes de fãs que querem lançamentos dos caras? Assim como a legião de sedentos por uma novidade do Daft Punk? Ou os tantos que ansiaram pelo Chinese Democracy?

(Quanto aos últimos, infelizmente, não há muito o que fazer.)

Aos outros basta esperar.

Como se não houvesse escolha, Elliot Stocks sugere que haja uma saída. Não propriamente neste termos, mas como efeito colateral, provavelmente.

Num ensaio publicado no Medium (nova rede dos criadores do Twitter, dedicada a “bons e longos textos”), o músico e designer manifesta-se em prol de um novo modelo de negócios para a música.

O sistema seria sustentado em duas pedras: distribuição contida e contínua e remuneração por assinatura. Tudo feito pelo artista cairia direto nos ouvidos do fã.

A ideia é bonita no papel e na realidade. De certo modo, ela já engrena o que acontece na indústria fonográfica.

Dia desses as majors deram estalos de alegria com o primeiro crescimento do setor após 13 anos de franca queda. O dígito é de 0,3%. Miúdo, mesmo para as grandes somas de dinheiro que administram o punhado de majors pelo mundo. Suficiente, contudo, para a felicidade dos patrões.

A causa da ascendente é em terço parte da música digital, sendo do download quase 70% dessa parcela. O restante vem do streaming, cuja cadeia é a seguinte: artista cria, gravadora produz, distribuidora espalha, serviço de streaming entrega, fã consome.

Atenção aos verbos. A lógica do consumidor aplica-se aqui porque, como próprio Stocks lembra em seu texto, ao contratar um serviço como o Deezer, compramos um sem fim de opções. Um leque que venta bandas novas, músicas novas, discos novos.

Contratar o serviço de um artista mensalmente passaria a ser adquirir tudo isso exclusivamente desse artista.

O fã é oprimido (ou exaltado) numa figura de comprador que, como tal, obtem seu item de desejo periodicamente.

O artista é oprimido (se muito, exaltado) a um fornecedor de objetos. Ainda mais se tratarmos sua produção de maneira esparsa e constante, como um relógio fabril que apita à saída de cada peça — coisa comum no tempo tuitado sem espaço para álbuns, que dirá os conceituais.

De um artista para um conjunto deles, a visão cabe ao modelo do streaming. Paga-se pelo mar de música, mas será que as ondas interessantes vêm pela demanda de um mercado seco ou a conta-gotas da qualidade, novidade, relevância e originalidade? O streaming pode se transformar em mais uma arma para o pop-pastiche-chiclete apenas.

Tratar arte como serviço é um problema e um sintoma dos tempos.

Que o Metronomy tenha tempo para o terceiro álbum. O Daft Punk já disse que volta em breve.

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