Jornalismo

Doze Casos e Um Perito: A História de Ricardo Molina

In dubio pro reo. A expressão é elemento sagrado na lei dos homens que, invariavelmente, precisam julgar outros homens. “Se alguém tem dúvida, eu não posso condenar”, argumenta, na boa e última flor do lácio, Ricardo Molina de Figueiredo, mais conhecido como “perito Molina”. Ele desempenha seu trabalho como se fosse, ao mesmo tempo, doze jurados e um juiz, como no filme Doze Homens e Uma Sentença. Mas sua real tarefa não é ser jurado ou juiz. Por trás dos óculos elípticos o senhor esconde olhos, orelhas e nariz que não deixam passar os detalhes pequenos, as minúcias camufladas, os vestígios essenciais. Mais do que certezas, levantar dúvidas é sua função. “Não existe verdade absoluta”, analisa o perito. Ele não confunde para esclarecer. Ele esclarece para confundir.

“Há peritos que falam ‘minha conclusão é categórica’, e tem muito repórter que pergunta ‘o senhor tem certeza disso?’ Não!”, me diz ele em uma de nossas conversas. Molina não fica em cima do muro. Ele é um perito criminal e passa o dia em seu escritório rodeado por monitores, um ou outro sistema de som e uma papelada de laudos e análises técnicas que se espalha numa bagunça organizada. “Você precisa de três coisas para ser um perito. Uma lupa, para ampliar as coisas; lápis e caderno para organizar os dados; e o terceiro elemento, o mais importante de todos, o cérebro, porque não adianta ter equipamento e banco de dados, mas não ter o cérebro. O fator humano na perícia é fundamental.”

A máquina de café é o item mais moderno da sala. O ritual pra quem chega é tomar uma dose da cápsula escolhida ao gosto do freguês. O resto da aparelhagem é ferramenta de trabalho simples, sem grandes mistérios ou ares de laboratório do Professor Pardal. “As pessoas acham que tudo se resolve com tecnologia. Séries como CSI dão essa falsa impressão”, explica o perito.

O doutor Molina posou pra foto bem de boa na varanda. Crédito: Felipe Larozza/VICE

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Ciência, Jornalismo

O Relógio Atômico Brasileiro e Uma Outra Breve História do Tempo

Um avião aterrissa em Guarulhos. Nele, um homem carrega um item sem par na mala. Foram quase doze horas de voo e três meses de trabalho árduo. Paris é mais que um oceano distante. Sabe lá quais solavancos a carga teve de aguentar entre bagagens de turistas e empurra-empurra dos aeroportos. O esforço na construção do dispositivo teria ido pelos ares? Só o tempo dirá — o tempo que o próprio aparelho dirá. Mal dá pra notar, mas o tipo de estatura média, calvície pronunciada, bochechas coradas e ar boa praça leva consigo um artefato fundamental para fins militares, científicos e políticos. A peça que falta para a construção do relógio atômico brasileiro.

Daniel Magalhães, doutor em Física, é um dos principais responsáveis pela criação da versão nacional do relógio-atômico que, de tão preciso, suplantou a milenar rotação da Terra como medição do tempo. Há menos tempo que isso, em 2006, Daniel terminou seu pós-doutorado no Observatório de Paris e voltou ao Brasil trazendo um gerador de microondas. O aparelho finalizou a estrutura básica do projeto que tinha começado em 2001 sob a orientação do professor Vanderlei Bagno no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof) do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos.

Que horas são, Daniel? Crédito: Felipe Larozza/VICE

“A gente acomodou as coisas aqui do jeito que achou melhor. Carreguei os sacos de areia do piso aqui embaixo”, me disse o Daniel enquanto mostrava com orgulho a sala de pouco mais oito metros quadrados nos subterrâneos da universidade. Embora o Brasil não faça parte, há uma rede espalhada pelo mundo conectando relógios desse tipo. Ela marca a hora exata em que um email foi enviado, permite que o GPS exiba a localização correta, baliza o voo de drones e mísseis teleguiados e atesta a segurança de plataformas online. A importância dos relógios-atômicos vem antes mesmo do visor de horário — o relógio construído por Daniel e sua equipe sequer tem um desses. Ele existe por outros motivos.

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Jornalismo

Cem anos de prostituição

As bochechas coradas, as pernas rotundas, as vozes ternas, os cabelos brancos. Há quem veja nessa descrição uma avó perfeita. Há quem veja um corpo excitante. Há quem veja tudo isso em dobro. “Nós sempre fomos mais que putas”, diz Louise Fokkens. Ela e sua irmã, Martine, são as prostitutas mais antigas de Amsterdã. E são gêmeas.

Louise nasceu pouco antes de Martine. Louise sempre foi a primeira em tudo. É ela quem fala à Tpm. Com 20 anos, Louise também deu início aos trabalhos da dupla. Forçada pelo marido a se prostitur, logo se livrou dos jugos dele para cair na vida com as próprias pernas. Martine veio a seguir. “A maioria das garotas faz isso porque não tem muitas opções”, diz Louise.

Cultura, Jornalismo

Choffer sobre duas rodas

Valdo Rodrigues de Sousa tem uma excelente memória. Ele sabe de cor dezenas de caminhos espalhados pela cidade de São Paulo. Nada que um motoboy não tenha na cabeça, ainda mais no seu caso: Valdo é o motoqueiro oficial do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) — ele também lembra da maioria das corridas que fez com o político.

O que Valdo não consegue dizer com precisão é a data da primeira vez em que atuou como chofer-motociclista. Estima dez anos desde o dia em que o estafe do senador ligou para a sala da sua microempresa na rua Pamplona. “Eu falei: ‘Pegar o senador?! Vamos lá ver’. Imaginamos que fosse trote.” Não era. Naquele dia, por volta das 18 horas, o senador subiu na garupa do motoboy e eles fizeram em 15 minutos um trajeto que, de carro, levaria 1 hora. Outro dia Valdo levou Suplicy do centro até a zona leste, e uma vez, na rota mais longa, foi da casa do político até Carapicuíba, na Grande São Paulo.

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