Música

Ajudar o peixe…

Vá, nem é uma das melhores músicas do Billy Idol. Ou melhor dizendo, nem é um dos melhores hits do pai do Supla — pobre (ou não) coitado que só se fez de hits após o Generation X. O que pegava nessa música era o refrão: ajudar o peixe… Tinha gente que até apelava e emendava aí o backin’ vocal: feche os olhos e vááá.

Nesse caso é uma transliteração do som muito bem sucedida. Afinal, duvido que você escute outra coisa que não seja a súplica ao peixe; caso contrário você sabe a letra — e não vai ser eu quem vai escrever ela aqui!

O cômico é que criaram um site pra isso. Kissthisguy.com só reúne essas confusões entre o que foi ouvido e o que foi escrito. Às vezes a diferença nem é tanta — principalmente em se tratando de profundidade poética —, mas o engano não deixa de ser engraçado.

A começar pela f*dida Purple Rain, cujo verso (Excuse me, while I kiss the sky) dá nome ao site. Ali tem mais um monte.
O Rock the Casbah do Clash virou Lock the Taskbar. O wannabes (de Pretty Fly for a White Guy) do Offspring virou one-eyed peas. Enquanto isso, o drama do REM, It’s me in the corner/It’s me in the spotlight, dá lugar à chanchada Let’s pee in the corner, let’s pee in the spotlight.

A língua do Tio Sam — e a nossa também — é cheia dessas malandragens (mode boça). De vez em quando dá nisso e noutros:



Último vídeo do anderssaruo.com

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Now playing: Stan Getz, João Gilberto, Astrud Gilberto – O Pato
via FoxyTunes

Cinema

A humanidade de um homem só

*Resenha do filme O Pagador de Promessas *

O Pagador de Promessas é um clássico que merece ser tratado como tal
A Palma de Ouro conquistada por O Pagador de Promessas, em 1962, não foi um prêmio apenas pro cinema nacional. Foi uma vitória pra toda produção cultural do país, em especial a literatura. Pois, em se tratando dela, O Pagador de Promessas remete a grandes nomes. O início do filme já lembra a aridez de Graciliano Ramos: o trajeto no qual um homem carrega uma cruz é alçado a epopéia devido à trilha sonora magnânima e às tomadas incomuns para a época.

O tempo, aliás, é um dos fatores que dá o tom do conflito no filme. Acompanhado unicamente por sua esposa, Zé-do-Burro carrega uma cruz até a Igreja de Santa Bárbara, a fim de pagar uma promessa. Os dois se vêem numa Salvador com automóveis, jornais, pessoas de todos os tipos e interesses — algo que vai além da vida no sertão trespassada na atuação da dupla Leonardo Villar (Zé-do-Burro) e Rosa (Glória Menezes). A Salvador de O Pagador de Promessas pode ser moderna, mas, até certo ponto, conserva seu ar colonial. Foi lá onde viveu e escreveu o Boca do Inferno. É lá onde ainda há espaço para o escárnio e a sátira. Todo um cenário de Gregório de Mattos é retratado: os aproveitadores e malandros que surgem em cada degrau da escadaria da Igreja; as autoridades, que são vistas simultaneamente com maus olhos e temeridade (aí também um quê de Graciliano Ramos); o sincretismo religioso, que pulula em cada seqüência — para Zé-do-Burro, Iansã é Santa Bárbara.

A película, originalmente uma peça, parece ter sido muito bem adaptada até metade de sua projeção. Após, isso, contudo, a linguagem cinematográfica por vezes é prejudicada em detrimento às características da peça. Os personagens surgem e reaparecem sem continuidade, a trama torna-se muito dedutiva. Felizmente, a ótica do cinema prevalece nos planos. O diretor, Anselmo Duarte, aproveita bem o cenário sem torna-lo constante. Cada cena tem uma apreensão diferente, seja no movimento da câmera ou em takes estáticos.

Em uma dessas cenas, Zé-do-Burro sobe a escadaria junto do padre, dialogando longamente sobre a promessa. O padre, como outros personagens do filme, quase não é nomeado. É um artifício antigo, mas eficiente a fim de transpor o regional a um âmbito global. Os tipos soteropolitanos tem resquícios da humanidade, assim como se faz na literatura de cordel, vertente tipicamente nordestina. Aproveitar esse aspecto foi uma idéia de Dias Gomes, mas muito bem aproveitada aqui, o que não ocorre sempre. É o caso do filme Alto da Compadecida, peça escrita por Ariano Suassuna. Nela, a figura do nordestino João-Grilo, quando retratada na película, cai no estereótipo.

O esterótipo e o paradigma são características que também aparecem em O Pagador de Promessas. Não se pode acusar o filme, contudo, de cair no comum. A cena final é quase super-realismo. Ali a projeção se amarra a Guimarães Rosa, mas, principalmente, ao livro mais antigo do mundo: a Bíblia. Porém, possuir resquícios de outras obras não é o maior mérito de O Pagador de Promessas — nem tão pouco ter ganhado mais três prêmios internacionais. O grande trunfo de O Pagador de Promessas é contar a história do homem brasileiro sem deixar de ser um homem do mundo, daqueles que se vê em qualquer lugar: entre a cruz e a espada.
Arte, Design

Feriado serve pra essas coisas

Nem só de viagem pro litoral ou shopping se faz o feriado do paulistano. Faz-se também de alegria por não ter de pegar trânsito, como deu pra sentir na vazia Av. Brasil, sentido Ibirapuera, nesta segunda.

Quando Vidas se Tornam Formas: Diálogo com o Futuro – Brasil/Japão

A minha primeira impressão foi a de que faltava propósito a tudo aquilo. É claro que estamos no ano do centenário da imigração japonesa e bla bla etc e tal. O que seriam, então, aqueles amontoados de plantas na primeira sala? Arte contemporânea? Vá lá… Isso só não pode ser desculpa pra achar relações onde nem existem.

Felizmente, ao fim da exposição a falta de propósito até foi suprida, mas ainda assim de maneira difusa, vaga.

Como pude ler em off (não, isso não existe), a exposição tenta mostrar as interfaces entre a arte moderna, pós-moderna e/ou contemperânea aqui do Brasil e do outro lado do mundo. Isso por vezes é até alcançado: a arte d’osgêmeos (onipresentes) lembra a toy art; o look da Isabela Capeto tem reminescências em Tóquio — até porque as “reminescências de Tóquio são a moda global.

O problema talvez tenha sido a disposição das obras e instalações — que jargão mais eng. civil. O caminho era confuso e por vezes não levava o espectador a imaginar os estreitamentos existentes entre o que se faz lá e o que se faz cá. Isso, de maneira alguma, joga a exposição no lixo. Algumas instalações são bem interessantes, como aquela que diz que “Pode causar vertigem”, ou a colagem (se não for colagem, me perdoem) da Beatriz Milhazes.

Assim, fica a dica (não imperativa): vá. Comece pela sala 2 e passe pela sala 1.

* Mais fotos no flickr que agora há pouco resolveu não abrir.

Misc, Música

Rave do eu sozinho e um pouco mais

Foto no flickr da lucy.aboytes


Aconteceu a
primeira rave sem música em Nova York. O evento, que já se realizou na Europa, ocorreu na Union Square. Uma multidão de jovens dançando com cada um escutando à playlist do seu iPod.

Não vá pensando que é só chegar e dançar. O negócio tem uma série de regrinhas para deixar a “vibe” mais coletiva possível. Pra muitos é algo retardado. Eu vejo mais como uma metáfora que todos os participantes compram. Com tudo cada vez mais individual a necessidade pelo outro recrudesce. Haja vista, por exemplo, o coworking. Todo mundo quer se sentir mais social nesse mundo de metaverso.

* Pauta 2

E a Virada Cultural chegando, hein. presença confirmada no Mundo Livre SA, no Sick Sick Sinners, no Orquestra Imperial e no Ultraje a Rigor. Vai ter muito pano pra manga. E quem sabe algumas surpresas (boas, espero!)

* Pauta 3

O Lúcio Ribeiro e seus rumores. Diz ele que podem aterrisar por aqui Joss Stone, Megadeth, Guns, Red Hot, Madonna — e isso é só o primeiro parágrafo.

Pelo sim — Overcoming Folk Trio na Virada vai tocar — e pelo não — Rage Against the Machine, como ele disse há um tempo — é bom economizar uma grana.