Entrevista: Pedro Baby

No Rio, o janeiro fecha com gravação do DVD da Baby do Brasil. O show é parte da turnê Baby Sucessos, liderada por Pedro Baby, filho da dita-cuja. Abaixo, uma longa conversa com o músico, publicada originalmente na Trip.

Pedro Baby pouco recorda da primeira vez que foi aos Estados Unidos. “Só me lembro do rebuliço todo em volta”, diz ele sobre quando, junto de suas irmãs e seus pais, Pepeu Gomes e Baby do Brasil, foram barrados na Disneylândia pelos patriarcas serem tão ou mais chamativos que as atrações do parque. O episódio até virou música.

Sua segunda incursão em solo norte-americano, ao contrário, foi bem sucedida – embora o começo difícil. Com dois mil dólares no bolso e nada de inglês na boca, o rapaz, então com 16 anos, se debandou de casa como fizera sua mãe décadas antes. “Ou eu metia a cara nos estudos e dava uma parada com música ou eu partia pro mundo.”

Em 1996 ele trocou as praias cariocas pelo Queens com o violão a tiracolo. Em pouco tempo já tocava na noite, juntando novas referências a conhecimento que trouxera na mala e no sangue. “[Meu pai] queria muito que eu manifestasse a vontade de ser músico por conta própria, mas os grandes ensinamentos vieram da convivência [com ele]”, lembra.

Entre idas e vindas na conexão EUA-Brasil, Pedro foi colecionando trabalhos enquanto evoluía musicalmente. A lista já tinha Bebel Gilberto, Marisa Monte e Ana Carolina quando veio o convite fatal de Gal Costa: “Eu não esperava ficar na lista de músicos chamados e foi uma alegria muito grande. Me senti muito honrado”.

Para fechar a mão de grandes cantoras só faltava ao bom filho tornar a casa. Aos 34 anos convidou a mãe a retornar aos palcos da música popular brasileira – que só aceitou após uma conversa divina e uma ajudinha terrena. “Você acha que Deus não quer que uma mãe toque com seu filho?”, brinca Baby do Brasil durante um dos elogiados shows da turnê Baby Sucessos.

No palco, Pedro se reúne a amigos de longa data para tocar um repertório com poucas mudanças de arranjos e canções escolhidas a dedo por ele. Empunhando a guitarra e interpretando clássicos como “Masculino e Feminino”, o rapaz inevitavelmente faz lembrar seu pai, mas sua assinatura também soa nas cordas.

Por isso mesmo um disco com seu nome escrito em letras garrafais não deve tardar, diz ele, mas sem deixar de lado as parcerias. “Independente de lançar um trabalho, de ter uma história minha, não quero deixar de colaborar com artistas que admiro e com músicos que me identifico”, avisa esse outro menino do Rio.

Como você começou a tocar?
Pedro Baby: A música sempre esteve presente em casa, mas eu comecei a tocar a partir dos 14 anos. Eu tinha violão em casa e um dia eu estava tentando arranhar um acordes de “Preta Pretinha”, meu pai meu viu tocar e me mostrou uns dois ou três acordes da música. Isso é uma lembrança clara que tenho. Foi através do violão, naquele momento, que comecei a tocar. Depois fui evoluindo. Na época, meu padastro, o Nando Chagas, formado na Berkeley, foi uma pessoa que me auxiliou muito. Me deu muito material para tocar. Com um tempo eu comecei a dar canja no show da minha mãe, mas só um bom tempo depois que eu comecei a participar das coisas com meu pai. Mas isso durou até os 17 anos, quando eu decidir ir embora para os Estados Unidos.

E como era a relação com seu pai? O que eu pude ver de show, ensaio, de formar de lidar com música, o apego ao instrumento, tudo isso é tão importante quanto ter um professor falando. Ele queria muito que eu manifestasse a vontade de ser músico por conta própria, mas os grandes ensinamentos vieram da convivência. Tanto que quando eu comecei a demonstrar que aquilo era meu caminho, naturalmente surgiram mais oportunidades de aprender com ele. Mas sempre foi algo mais comigo mesmo. Me dou bem com ele. Tocamos juntos no passado.

E qual a sua relação com sua família? Minha mãe criou a gente com muita liberdade. Cada um tem uma personalidade bem definida. Meus irmãos, como vieram de outra geração, não pegaram essa coisa de estrada, show, ensaio. São de uma geração de festa, rave, boate. Isso é uma cultura mais forte para ele. Os dois são produtores de música eletrônica, mas não se transformaram em músicos propriamente dito. Minhas irmãs tinham o SNZ, mas agora cada um segue seu caminho. Cada um correndo atrás do seu espaço, da sua onda musical. Não é fácil vir de uma família musical de onde vem uma certa responsabilidade para apresentar um trabalho de qualidade, uma carreira firme. Às vezes é mais difícil. Pode abrir portas, mas pode te prender. Então cada um tem buscado uma evolução, um caminho para seguir. A gente é junto, mas cada um com seu caminho.

E qual era o cotidiano na sua casa quando você era garoto? Meu pai sempre gostou de ter estúdio em casa, então me lembro muito de banda tocando, ambiente musical. Aquela alegria em casa. A extensão do que foi os Novos Baianos. Quando acabou a banda, a maior parte dos músicos seguiu na carreira solo do meu pai e da minha mãe, então já tinha um afinidade muito grande entre eles de convivência e aquilo se estendia na estrada. O que mais me fascinou foi esse convívio. Quase como se você estivesse com seus amigos da escola e tivesse aquela excursão! Eu sentia muito isso. A alegria, a bagunça que tinha na escola tinha no final de semana com aquela turma. Minha sempre procurou levar a gente, sempre que ela pode — acho que ela levou até demais! Mas a gente queria muito. Eu também, por ser o homem mais velho, me fazia presente, buscava ser útil para participar de uma forma bacana. Era essa convivência até o período em que eles viviam juntos. Mudou um pouco quando eles se separaram e houve núcleos diferentes de convivência. Eu tinha entre 8 e 10 anos quando isso aconteceu.

Como foi depois da separação? Os filhos todos continuaram com minha mãe, meu pai foi buscar outra casa, mas a gente continuou convivendo. Aí aconteceu outro núcleo: no trabalho da minha mãe tinha outros músicos, outra turma viajando, e no trabalho do meu pai era outra turma, outra banda. Naturalmente, uma criança sente um pouco a distância, a quebra daquele ambiente de convivência, mas minha mãe soube lidar muito bem. Ela conseguiu manter o elo. Foi uma adaptação que é normal na vida de muita gente. Apesar de eles terem uma imagem muito forte juntos, mais do que muitos casais.

E por que depois de um tempo você resolveu ir aos Estados Unidos? Foi uma questão de oportunidade também. Aconteceu. Eu tinha 16 anos e comecei a sentir dificuldade de conciliar essa vida de estrada, estudos… Não estava rendendo bem: queria viajar, fazer show, queria me concentrar naquilo. Muito por causa do meu padrasto, um cara que teve a oportunidade de estudar em Boston, eu sempre ouvia as histórias. Como era a experiência de estudar fora. E eu também tinha um sonho de conhecer Nova Iorque desde pequeno. A meca da música, das coisas eletrônicas, das guitarras e tudo o mais. Sempre tive uma vontade muito grande de conhecer e até aquele momento eu não tinha ido para lá. Surgiu uma oportunidade através de um amigo. Ele me emprestou uma grana, já tinha morado lá e resolveu me levar. Eu não sabia uma palavra em inglês. Ou eu metia a cara nos estudos no Rio e dava uma parada com música ou eu partia pro mundo. Correr atrás de um negócio meu e realmente responder sobre meus atos. Acabei optando por isso. Graças a Deus eu tive sorte e hoje estou aí pagando minhas contas direitinho!

Sua história é bem emblemática para artistas brasileiros. Ela lembra a do Tim Maia, que também foi para os Estados Unidos bem jovem. Como foi sua chegada lá? Eu fiquei impressionado com as condições que ele foi na época. É um negócio absurdo. As minhas condições foram um pouco melhores! Mas também foi quase “uga-uga”. Eu não falava uma palavra de inglês, tinha dois mil dólares e passagem de volta marcada para dois meses depois. A minha sorte é que eu tinha uma irmã morando lá, então ela me recebeu e dormi dois dias na casa dela. Mas como eu estava com um amigo e os apartamentos lá são pequenos, a gente tinha que arranjar um lugar. A gente teve que correr muito atrás e muito rápido. Em dois dias a gente alugou um apartamento no Queens, fora da ilha, e aí começou a vida. Aí você faz tudo até começar a trabalhar com música. Eu dei sorte que dentro de um mês estava fazendo conexões musicais e consegui entrar em um trabalho bacana. Foi a base da minha estrutura nos Estados Unidos nos primeiros 5 anos.

Isso foi com a guitarra? Foi com o violão. Eu virei guitarrista anos depois. Quando eu fui para o aeroporto eu tinha essa dúvida de qual instrumento levar: eu tinha um violão e uma guitarra. Nessa hora foi que eu defini o caminho para minha vida também. Pelo fato de eu ter levado o violão, muitas portas se abriram nos Estados Unidos por ter a sonoridade brasileira. Na guitarra eu ainda era muito verde. Provavelmente se eu tivesse optado pela guitarra eu não teria sobrevivido. Seria o instrumento errado. Foi uma escolha determinante. Os trabalhos que eu consegui, consegui por causa do violão. Fazia show na noite. Inclusive dois integrantes da banda em que eu toquei estão hoje no trabalho da Baby. Pessoas que conheci lá, se tornaram amigos e até hoje estão comigo. Em 99 eu tive um convite do Davi Moraes para participar de um disco produzido por ele. Voltei ao Brasil para ensaiar, fazer shows, lançamento. Quando deu uma esfriada de novo meus amigos me ligaram com outra oportunidade nos Estados Unidos. Fechei a mala e resolvi voltar. Fiquei mais uns bons três anos. Foi quando surgiu convite para trabalhar com a Bebel Gilberto. Tinha um trabalho fixo. Isso foi em 2003.

Você gravou algo com ela? Gravei. O convite para ficar na banda dela veio através do disco. Ela gravou uma composição minha em parceria com Daniel Jobim [a faixa “Everyday You’ve Been Away”]. Acabei gravando outras músicas no disco e quando vi era basicamente meio disco. Aí surgiu o convite para entrar na banda. Fiquei basicamente dois anos trabalhando com a Bebel. Aí comecei a ficar com saudade do Brasil, sentia falta da minha família, várias coisas que não eram latentes nos primeiros anos de Nova York. Voltei e fui gravar no disco Infinito Particular da Marisa Monte. No meio da gravação eu senti que ela estava montando uma banda nova que ia sair em turnê. Me ofereci para trabalhar com ela. Tinha acontecido um convite dela em 2000, mas ali, cinco anos depois, tive essa oportunidade e falei para ela que ia voltar ao Brasil. Foi quando fiz a turnê “Infinito Particular”. Conheci mais um integrante da banda da Baby nessa ocasião. Depois tive convite de trabalhar com a Ana Carolina durante dois anos e após isso surgiu o convite da Gal.

Como foi seu trabalho com a Gal Costa? Foi uma surpresa. Eu não esperava ficar na lista de músicos chamados e foi uma alegria muito grande. Me senti muito honrado. Foi uma grande responsabilidade. Pela história dela, pela conexão com minha família – meu pai tocou com ela no disco Fa-Tal. Foi um momento de afirmação como músico. O trabalho tem uma visibilidade muito grande na parte musical porque são apenas três músicos. É preciso desenvolver uma história bacana. Depende muito de como você vai executar aquilo. Foi um desafio que eu levei com muita honra. Mais ainda por acompanhar a maior cantora do Brasil.

Um dos filmes sobre os Novos Baianos se chama “Filhos de João”, em referência à influência do João Gilberto sobre o trabalho dos seus pais. Você também se considera um filho de João? João Gilberto foi uma coisa que, por mais que existisse a conexão com os Novos Baianos, eu não tinha a consciência musical de quanto aquilo foi importante para eles. Só vim a ter essa consciência musical quando eu fui morar nos Estados Unidos. Foi quando eu tive meu encontro com o João Gilberto. Depois eu liguei uma coisa a outra. Descobrir isso foi muito determinante na minha escola musical. O caminho harmônico e melódico, a síntese do samba, a influência da música brasileira que vem com ele.

Depois de todos esses projetos, nem de longe você pode ser visto como músico de apoio. Seu trabalho como compositor, em que medida ele afeta os shows que você faz hoje com a Baby? Essa parte de compor, para mim, veio primeiro. Comecei a tocar porque eu tinha melodias na minha cabeça e queria fazer música. Quando eu fui para os Estados Unidos tocar na noite foi quando eu comecei a aprender a tocar canções de outros artistas, conhecer outros universos musicais. A composição vem primeiro e é um processo que não para. Tem as safras. Tem épocas que você está muito mais propício a compor e tem outras que você está focado em realizar trabalhos, ideias que já concebeu, arranjos que já pensou e aí você vai para estrada botar aquilo em prática.

E onde está sua assinatura nesse espetáculo enquanto diretor musical e guitarrista? Primeiramente na escolha do repertório. É onde está o conceito de todo o trabalho. No que eu queria mostrar pro público. Isso é onde está minha maior assinatura. Além disso tem a escolha das pessoas que estão trabalhando comigo, pelo fato de terem uma relação pessoal comigo, é importante para o clima do que está acontecendo no palco. E na questão dos arranjos não tinha muita coisa para ser mexida. Não tem como descaracterizar algo que tem uma personalidade muito forte. Você precisa adaptar isso para a realidade dos músicos atuais. Não tinha sopro originalmente, por exemplo. O dedo está nessas questões fora do palco e na liberdade para para fazer a leitura de uma forma nova.

Tem algum momento em que você toca guitarra baiana, instrumento que seu pai usou? Não. Foi um instrumento que eu não desenvolvi por bobeira minha. Talvez por não tê-lo e não me identificar tanto com ele. Eu vim do violão, trabalhei muitos anos como violonista. Não ter tido uma guitarra baiana para estudar aqueles temas todos. Me tornei guitarrista quando trabalhei com a Ana Carolina. Ela me viu tocar a primeira vez quando eu produzi o disco da Preta Gil. A gente fez um show, a Ana me viu tocando guitarra e a visão dela era de guitarrista. Quando eu fui trabalhar com ela eu tive a oportunidade de pegar o instrumento, explorar ele no palco.

Então não foi nos Estados Unidos? Não. Lá foi muito pouco. Eu era muito verde como guitarrista lá.
Mas você traz referência de guitarrista de lá? Com certeza. Não precisava nem ir lá. Meu pai tem uma referência muito forte do Jimi Hendrix, do Santana, do Jeff Beck, Stevie Ray Vaughan. Pelo meu padrasto eu tinha uma influência do George Benson, esses caras mais do jazz.

Você pretende voltar ao violão? Não abandonei, não! No show da Gal é 60% guitarra e 40% violão. É um lugar em que posso tocar violão do jeito que eu gosto. Ela tem uma influência do João muito forte. Não só dele, mas também do Jorge Ben, o violão mais escovado, do Gilberto Gil, com “Barato Total”. O trabalho da Gal é um resumo. Tem um pouco de tudo. Tem o lado guitarrista forte, tem solo, guitarrista melodioso, violão de samba, violão suave, violão escovado. O show dela é bem completo. Acho até que por essa formação do violão eu fiquei ali na lista dela.

E você e o Davi Moraes? Vocês são grandes amigos, certo? Sim. O Davi tem uma importância muito grande. É um cara que abriu caminhos pra mim no Brasil. Pelo músico que ele é, pela escola que ele representa, ele me trouxe junto. O fato de ele ter tocado com a Marisa estabeleceu um universo musical que depois eu dei segmento. Com o Moraes que ele me deu oportunidade de trabalhar. Não só por isso, mas pelo fato de ele ser muito ligado ao meu pai e eu não ter meu pai mais em casa, ele me mostrou muita coisa. Isso eu tive com o Davi.

No mundo como um todo você acha que a música boa está perdendo espaço? O foco é outro. É muito na imagem, comportamento, estilo de vida. Está mais por aí que propriamente a música, a canção, a mensagem.

Quando você fala em imagem e comportamento, não tem como não pensar nos Novos Baianos. Eles trazem informação não só pela canção, mas também pela imagem e pelo comportamento. Hoje em dia é o inverso, não acha? A imagem e o comportamento nos Novos Baianos era uma coisa natural que era incrível justamente por isso. Por trás daquele comportamento vinha aquela música com força tão grande. Não adianta nada ter aquele comportamento todo e a música não falar. Provavelmente se o comportamento não fosse aquele, mas a música fosse daquele jeito, também teria uma força. Acho que o bacana é a união das duas coisas naturalmente. Hoje em dia o artista acaba buscando primeiro ser uma celebridade que realmente ser um artista de música. O foco acaba sendo nisso: na fama, um caminho de popularidade que talvez vá levar a música mais longe, mas isso não perpetua.

Parece que você está sempre acompanhado do Betão [filho do Paulinho Boca de Cantor], do Davi Moraes também. Queria entender melhor se vai rolar alguma coisa com eles, se você tem projeto solo… Tenho vontade de fazer coisas com diversas pessoas que eu gosto. Tenho a intenção de lançar meu trabalho solo, minhas canções, músicas que gosto de tocar, interpretar. Tenho vontade de fazer isso. Em disco mesmo tenho vontade de lançar minhas canções. Independente de lançar um trabalho, de ter uma história minha, não quero deixar de colaborar com artistas que admiro e com músicos que me identifico. São coisas que não quero deixar de fazer. Quero arranjar um equilíbrio bacana. A fonte de inspiração e de novas ideias é esse bate-bola com pessoas que você se identifica. Provavelmente a gente vai fazer coisas juntos. É natural. Não dá pra fugir disso. É questão de tempo. No momento o foco é esse DVD da Baby e na sequência eu quero gravar um disco do show. Eu quero fazer tudo isso até o final do ano.

Para fechar: às vezes rola uma bronca da sua mãe no palco? “Não sola tanto” ou algo assim?! Não, não! A bronca, se tiver, é minha! Eu que fico, em determinados momentos, cuidado pra gente ir num caminho. Mas ela se diverte muito, ela adora. Tem um cuidado para deixar tudo bacana. Tem uma questão de proteção muito forte. É um instinto. Tem isso de deixar tudo bacana para ela poder se divertir, curtir. No fundo ela está ali se divertindo!

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