Por que precisamos do Daft Punk?

Que chatice quando alguém mede sua biblioteca musical por gigabaites. Baita chatice. Versão computadorizada do complexo freudiano em que virilidade e tamanho do carro supostamente se refletem. Seria uma reprodução pós-internet desse machismo-alfa (ou beta, se ainda em teste) ?

Essa SUV de GBs — grande, espaçosa, folgada e, vai saber, interessante em alguns momentos — fica estacionada nos HDs. Quanto maior a capacidade de armazenamento, melhor. Pobres galpões virtuais com vocação pra mobília de antiquário digital. O disco rígido torna-se, bit a bit, fóssil duro frente à nuvem fluida, acessível em qualquer dispositivo conectado à internet.

Por baixo da colcha tecnológica a  RAM segue. Ao contrário do HD, ela não tem compromisso com a alocação de espaços por tempo indefinido. Ela serve ao que for necessário. Recupera softwares, aplicativos e plataformas assim que acionada. Passam por ela arquivos JPEG, MP3, AVI e toda sorte de extensão que precise ser reproduzida como foto, música ou filme. Do trabalho de escola guardado há anos ao webapp que roda direto do navegador. A importância da RAM passa pelo poder de fluxo de informações independente de tempo ou ordem, sem o qual seriam impossíveis boa parte dos dispositivos eletrônicos que usamos hoje.

RAM: Random Access Memory.

Memória cultural

RAM: Random Access Memories.

O quarto disco do Daft Punk quase tem nome de peça de computador. Dele sabe-se mais a lista de músicas, depoimentos de alguns artistas participantes, uns trechos de uma canção e data de lançamento. São dados suficientes, espaçados e nada sequenciais que permitem vislumbrar a importância do álbum como rompante de um estado atual da música popular.

Uma máquina especializada em Big Data — a próxima ciência positivista da computação — talvez pudesse fazer essa previsão rastreando tudo que perpassa o universo de Thomas Bengalter e Guy Manuel de Homem-Christo. Essa máquina ainda não existe. O que existe são os robôs em que os dois se transformaram num acidente de estúdio em 2001. O tipo de mentira que, de tão repetida, chega a ser verdade.

Os ciborgues escolheram RAM para nome do seu próximo disco. A RAM não é um processador superpotente que minera BitCoin e gasta quilos de energia. Tampouco é um ábaco pra contar pontuação de mesa de sinuca. A RAM é uma peça que vem de um incerto passado, então informática, e vai a um futuro certo de tecnologia demasiada zero-e-um, sem chance ao erro. Mantem-se viva dando vida ao que conhecemos pelas interfaces digitais.

O devaneio ciberpunk reside na própria existência de artistas como a dupla francesa. Travestidos de robôs, eles antecipavam já nos anos 90 o nosso futuro-presente biônico. Os dias em que o Google Glass começaria a dar as e nas nossas caras e conglomerados mundiais brigariam para enfiar transistores e redes sociais em itens do vestuário — não sem antes pensar em como retirar informações de seus usuários ou como lhes enfiar propagandas veias adentro. Quem disser o contrário que largue agora o smartphone.

Mais ciborgues ainda, eles subvertem a ordem de uma tal antropologia tecnológica. Em vez de subsistir em vitrines conectadas a um perdido sistema de produção que fabrica ídolos a partir de pessoas pouco talentosas, o duo faz uma trajetória particular: conserva, junto da capacidade de criação, identidade e calma. Virtudes aos sábios. Aos olhos, rostos pouco conhecidos que, nesse tempo, valem tanto quanto ele próprio — ponha aí quatro anos de produção do álbum.

Ponha também o barulho que se tem feito em torno do disco ainda a um mês de seu lançamento oficial.  As músicas de Random Access Memories são conhecidas por duração e, algumas, por nome. Não foram disponibilizadas para um blog que se gaba da quantidade de visitantes — ao menos não até agora. Também não houve première para revista resistente — ao menos, novamente, não até agora.

O disco vive. Uns minutos dele já chegaram aos ouvidos do mundo na canção “Get Lucky”. Dois comerciais na TV norte-americana com cara de videoclipe, afinal, Television Rules The Nation. Um único teaser num dos maiores festivais do planeta, o Coachella. E, claro, um sem fim esperado de reproduções disso tudo na internet. Seja um golpe orquestrado nas salas de reuniões da Columbia Records, ainda que difícil de acreditar, o touché saiu dos punhos da dupla — e eles acharam graça.

A guerra cirúrgica de divulgação vai fazendo muita gente salivar por aí. O povo anda com fome de sustância, comida que a frenética cena EDM não entrega com seus previsíveis clímaces e quedas entremeados por indistinguíveis texturas.

Nesse vácuo sedento, apesar da água na boca, uma enxurrada de produções é atribuida a Bengalter e Homem-Christo. A brincadeira séria do fanzine renasce em áudio com meios de produção musical disponíveis em notebooks. No Daft Punk, o jogo fica ainda mais curioso pela quantidade de participantes. Numa ponta, a mídia global feito cachorro que caiu do caminhão em dia de mudança. A rádio francesa FUN foi a bola da vez. Nesta segunda ela divulgou a suposta versão completa de “Get Lucky”. Na verdade, tratava-se de uma colagem com trechos da música feita por um fã — o que desencadeou uma onda de ódio à emissora.

(Em tempo: perdi a conta de quantos blogs por aqui caíram na armadilha.)

Sabendo desse frenesi global, a revista francesa Tsugi protagonizou um outro caso que vale menção. Ano passado, a publicação divulgou uma nota a respeito de uma suposta nova música do duo. Chamada “Renoma Street”, a faixa não existia. Ao menos até a edição chegar às bancas. Dali em diante bastou uma semana para veículos do mundo inteiro prosseguirem a espiral alimentados por um notável interesse público pelos robôs do hexágono. E surgiram ene versões de “Renoma Street”, uma grande piada da Tsugi.

Aí vem a outra ponta do tabuleiro: os produtores e compositores que assinam Daft Punk. O arremedo de bondade é mais para si que para os donos do também pseudônimo. Ter a chancela do duo em uma composição é um passo meio torto para o sucesso, mas é um passo. Do Beatport ao Soundcloud, é uma selva lá fora. Há quem compre cliques e fãs nessas redes numa extensão da popularidade que  determina relevância no showbiz. Pegar rabeira no duo francês não é tão mal assim, então.

Não é tão fácil, também. Antes fosse só acompanhar o rastro de LED deixado por Bengalter e Homem-Christo. A tarefa é mais difícil que realizar colagens em estúdios siinônimos de quartos de hotel e saguões de aeroporto com maquinários restritos a um MacBook com Ableton Live. O não-lugar, sua impaciência e suas bases fracas resultam em pastiche ao passo que tomam espaço da tão propalada verdade dos, veja só, robôs: é preciso por alma na música eletrônica.

Memória musical

“[O Daft Punk] volta ao passado para avançar ao futuro”. A declaração, feita por Nile Rodgers, está em um dos vídeos da série “The Collaborators”, dedicada à divulgação do novo álbum. O mentor do Chic se juntou aos franceses na composição de algumas faixas de Random Access Memories. O fato, além de um merecido retorno aos holofotes, lhe rendeu a elucidativa frase. Rodgers parece ter capturado com sabedoria o que se passa nas mãos e CPUs dos ciborgues. Se há alguma sequencialidade na RAM do Daft Punk, ela reside no constante estágio seguinte da postura anacrônica e diacrônica que, pelo esforço dos artistas e pela natureza tecnoeletrônica, destitui e mescla referências — seja no futuro, presente ou passado.

A posição de Rodgers é privilegiada. Em 1979 ele criou o que seria a primeira base bem sucedida do hip hop. Good Times é parte de uma reação em cadeia nuclear na gênese dos robôs do Daft Punk. A canção estreou em Risque, álbum do mesmo ano cuja capa tem um senhor Chic mal-encarado metido a gangster em frente a um tecladista morto. Velório de uns, nascimento de outros, foi sobre a linha de baixo entrecortada pela guitarra de Rodgers que surgiu Rappers Delight, clássico do Sugar Hill Gang.

Dois anos mais tarde o grupo invadiria o SoulTrain, pedra-chave da TV para a comunidade negra dos Estados Unidos. O hip hop começava a se institucionalizar na sua forma básica: uma célula rítmica e melódica como sustentação para a prosódia. O DJ avançava a tradição trazida da Jamaica e, além de mestre de cerimônias, tornava-se chefe de obras do gênero. O cimento disso era o sample.

Mais acima, em Chicago, a música negra seguia seu caminho eletrificado. A house music embrionava em clubes locais utilizando, também, samples grooveados pontuados pelas recentes baterias eletrônicas (destaque para a Roland TR-808). O gênero era o passo seguinte a experimentações de caras como Lerry Levan, Vernon Bucher e Giorgio Moroder — italiano que também participa do novo álbum do Daft Punk e é responsável, entre outras coisas, pela faixa “I Feel Love”, de Donna Summer, e pela trilha sonora de Scarface, cuja sonoridade sintética ajudaria a moldar outros filmes entre os 70 e os 80.

Esse caldeirão transbordante respingava sua mistura para o outro lado do Atlântico. A música norte-americana refazia seus passos na Europa sem a negrofobia de alguns setores dos Estados Unidos entre 1970 e 1980. Na Alemanha, as frauleins estavam na linha de frente da operação dance. Na Holanda, surgia o Boney M e seu groove de butique. Na França, não menos diferente, a disco encontrava celeiro. Claude François, equivalente a um Simonal do hexágono, atacava com sua versão mambembe das orquestrações da Motown.

Para o francês, especialmente, o gosto pela disco music representava a busca de uma alternativa balançante comparada ao cancioneiro tradicional — mesmo se não fosse no seu próprio idioma. Além de François e do grande Gainsbourg, ganhavam notoriedade no gênero nomes como Sheila e Ottawan. Ambos foram produzidos por Daniel Vangarde. O nome não diz, mas o sangue não mente: Vangarde é pai de Thomas Bangalter.

Ainda garoto, Bangalter já recebia influências que lhe seriam patentes em toda sua obra ao lado de Homem-Christo. A juventude só ratificou esse pacote norte-americano sobre a França que se renovava na expansão do house, crescimento do techno e nascimento do eletro — ao contrário da produção quase egocêntrica da Itália, resultante na EuroDisco. O gosto pelos gêneros de além-mar era tanto que o duo se conheceu em uma boate parisiense — e anos mais tarde fariam trio com o guitarrista do Phoenix, para não passar batido pela fase roqueira juvenil que também lhes serviria de influência.

O som que tocava nessa tal balada? Provavelmente algo mencionado na faixa Teachers, do primeiro álbum dos caras. Quem sabe até George Clinton, mestre do funk psicodélico do Parliament que, além de ser lembrado na faixa, é sampleado no clássico DaFunk. Ambas as faixas, de 1997, já apontavam o caminho tomado pelo Daft Punk: a volta ao passado para retornar ao futuro. A mesma volta e o mesmo retorno dito por Nile Rodgers em 2013.

A esquizofrenia dessa investida é tanto quanto genial e prolífica. Antes fosse apenas nadar em oposição à corrente sob a luz de uma contra-cultura. Trata-se de pinçar referências sofisticadas independentes de estilo — rótulos são um infeliz norte na cena pulverizada em gêneros e hashtags — e trazê-las para uma criação que revive a aura dançante, divertida e colorida da música eletrônica em essência. Ou em espírito, soprado pelos robôs Daft Punk numa música de bits e bytes. Não soa como nostalgia. Soa como futurista. É um projeto vanguardista na medida do seu alcance e do seu modo de fazer.

Não deixa mentir toda a cena house, eletro e, nos últimos anos, nu-disco estabelecida na música francesa. O Justice é cria quase que direta com seus arpeggios e guitarras progressivas, típicos da música “Voyager“. DJs e produtores como Cherokee, Louis La Roche e Kartell estão na ponta de lança das influências. Selos como o Shiny Disco Club e o Kitsuné são guarda-chuva dessa herança. A semente foi deixada pelo Daft Punk e por outros artistas como Cassius e Stardust, cujo maior sucesso tem participação dos ciborgues.

Acontece que o duo francês voltou a visitar sua caverna do Alibabá e no próximo álbum seguirá tirando pedras preciosas dali. O que escapou de Random Access Memories até agora dá pistas disso.

No primeiro clipe, com um minuto do que deve ser o single “Get Lucky”, aparece um Nile Rodgers empunhando guitarra, um Pharrel cantando e dois robôs tocando baixo e bateria. A cena, pouco comum para o que se espera de artistas de música eletrônica, já faz parte da produção da dupla Bengalter e Homem-Christo desde Discovery, segundo disco. Em entrevista à revista britânica Remix, em maio 2001, o duo revelava o gosto que tinha por instrumentos orgânicos soando como sintéticos — e vice-versa. “[Em Discovery] há guitarras que soam como sintetizadores e há sintetizadores que soam como guitarras”, afirmaram.

À época eles já eram ponto fora da curva utilizando baterias eletrônicas alternativas às queridinhas Roland TR-808 e 909 — as mesmas da época do Sugar Hill Gang. Os vocoders e uma espécie de Autotune mais primitivo também faziam parte do repertório. Ainda no segundo álbum, a célebre “One More Time” ganha a voz filtrada do norte-americano Romanthony. No terceiro disco, a faixa “Emotion” se disfarça bem como evolução do primeiro computador que cantou, o  IBM 7094, ou como antecipação de outras máquina quase falantes, os robozinhos EVE e Wall-E da Pixar.

Nesse mesmo disco, “Human After All”, a faixa “Robot Rock” recupera o potente riff de “Release the Beast“, do funk lado-B do Breakwater. O duo usa a célula como cama recortada para um crescendo poderoso da letra-título. Ela é entoada, é claro, por uma máquina com voz humana. Se uma se repete, a outra não. O que poderia ser considerado como sample exaustivo ganha tons e quebras nas mãos do Daft Punk. “Música eletrônica é sobre criar novos sons que sejam empolgantes”, disse a dupla à mesma revista Remix.

É a ideia contida na declaração sobre a crise que vive a EDM. A zona de conforto em que ela se ancorou, segundo os dois franceses, não se renova na mesma proporção do que a faz possível: a tecnologia. Até a memória RAM parece ter evoluído mais nesse tempo. O cenário se estende a boa parte da música pop que, se nos 90 flertava com os DJs, nos 2000 namorou com eles e nos 2010 realizou uma união civil — burocrática, barulhenta e previsível, como alguns casamentos. Não à toa o próximo disco do duo será lançado ao vivo durante um festival na Austrália, terra que tem dado à luz sonoridades mais interessantes como a do Cut Copy.

O retorno do Daft Punk, marcado para 21 de maio, promete ser, novamente, uma outra proposta à modorra. Uma posição diferente que não se restringirá a círculos alternativos ou underground. Mais do que músicas feitas para dançar, melodias nostálgicas, roupagens futuristas, novas texturas sonoras, efeitos visuais impressionantes, disco feito para ouvir de ponta a ponta e aguardado como evento; mais do que tudo isso, Random Access Memories tem a promessa de sacudir o status quo da música eletrônica e pop global em vários níveis. Por conta de tudo isso.

Senão, ao menos será um novo disco do Daft Punk. Precisamos dele.

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