Pressão Alta

Eles trabalham quatro meses por ano, ganham bonificações dez vezes maiores que o salário e se aposentam em 25 anos. Trampo dos sonhos? Não exatamente. A rotina de romper com as barreiras do próprio corpo cobra um alto preço dos mergulhadores saturados

Enclausurado a mais de 200 metros de profundidade, o mergulhador Sandro Zozo percebe que a pressão do ar dentro do sino começa a diminuir. Então, a água invade o local. Válvulas são abertas na tentativa de conter a enchente, mas nada parece funcionar. Ele trava um diálogo desesperado com um funcionário na plataforma. Sua voz está modulada ao tom Pato Donald devido à inspiração de hélio (presente na mistura gasosa que torna possível respirar em tal ambiente). Logo, o mergulhador se vê com a água no pescoço, e o único jeito de sobreviver é usar o cilindro de oxigênio. A inundação só é interrompida quando todo o sino está alagado.

Quem faz mergulho saturado (o nome é porque, em profundidades assim, o organismo do mergulhador fica saturado: chega ao limite da absorção dos gases que existem na mistura respiratória) costuma não ter uma segunda chance após um acidente desses, o que garante à profissão o grau de insalubridade máximo. Depois do acidente, Zozo, 38 anos, viu a pressão psicológica aumentar mais que a pressão atmosférica debaixo d’água. “Tive pesadelos e flashbacks do que aconteceu”, diz o mergulhador, posteriormente diagnosticado com ansiedade e estresse pós-traumático.

Até então, ele acumulava oito anos de experiência e cerca de 30 confinamentos em câmaras hiperbáricas como a daquele mergulho. Dentro delas, Zozo e os demais operários do mar ficam por quase um mês. São grupos de quatro a oito pessoas, espremidas em um espaço cilíndrico de 2,5 metros de diâmetro. Eles comem (praticamente em pé), dormem e trabalham isolados do mundo. Com uma espécie de elevador, o sino, eles chegam a profundidades extremas onde ficam por até 6 horas realizando a manutenção de tubulações e redes extratoras de petróleo.

O dinheiro vai embora com tatuagens, viagens, festas e mulheres - e o mergulho torna-se um vício perigoso

Na hora de voltar para o mundo real, muitas vezes, o peso do oceano é substituído pelo peso do confinamento. Entre fotos da família e solidão cotidiana, é comum ouvir choros nos camarotes. “Todo mundo que satura sonha que está fora da câmara”, diz Zozo. A parceria acaba sendo necessária à sobrevivência. Enquanto chora, o mergulhador recorda da vez em que seu compadre e parceiro de câmara socorreu sua esposa grávida após o rompimento da bolsa. “Ele chegou antes de mim em terra e disse para não me falarem nada até eu voltar à superfície”, lembra ele.

Para muitos, o alto preço do quase cárcere vale a recompensa. A cada saturação de 28 dias, o mergulhador ganha cerca de R$ 32 mil, praticamente dez vezes seu salário mensal – mas, por lei, só é permitido fazer quatro mergulhos desse tipo por ano. Em pouco tempo no emprego, Zozo comprou um apartamento mobiliado, trocou de carro e passou a frequentar restaurantes caros. Alguns colegas não mantêm o prumo. O dinheiro vai embora com tatuagens, viagens, festas e mulheres – e o mergulho torna-se um vício perigoso. “Tem cara de 50 anos que faz saturação e não tem uma casa”, diz ele.

Fôlego de sobra

Apesar dos excessos de outros mergulhadores do gênero, Adalberto Barbosa da Silva está há muito tempo na linha. Com 67 anos, se diz o mais velho mergulhador saturado em atividade no Brasil. Desde 1978, ADB, como é chamado pelos companheiros, deixa a família em terra e parte para o confinamento. O mergulhador teria direito a aposentadoria especial após 25 anos de serviço, pelo grau de insalubridade da função. Em vez disso, deu entrada na previdência social com 30 anos de carteira e continuou a mergulhar. “Só assim para conseguir manter um padrão de vida de classe média alta”, afirma.

Barbosa já chegou à marca de 316 metros de profundidade, uma das mais extremas já alcançadas no mundo. “Hoje em dia eu não sinto nada diferente nos mergulhos: não fico com ansiedade ou com alguma coisa no peito”, diz. Quando começou na profissão, o único contato com o mundo era via rádio.

Atualmente, há câmaras equipadas com televisão e computador com internet. A tecnologia das ferramentas de trabalho também evoluiu, mas os problemas de saúde nos sinos e nas câmaras de mergulho persistem. Por conta da alta pressão, o ar atmosférico é substituído por soluções chamadas Heliox ou Trimix, nas quais o nitrogênio é trocado por hélio – ao mesmo tempo, herói e vilão da saturação.

Um mar de problemas

Sem o hélio, os mergulhadores seriam embriagados em um processo denominado narcose (em que o nitrogênio é absorvido pelos tecidos do corpo e passa a retardar os impulsos nervosos). A absorção do gás substituto do nitrogênio, no entanto, deixa a voz mais aguda e o paladar menos apurado. As refeições, entregues periodicamente através de uma pequena antecâmara, ganham gosto metálico. “Você leva sua  pimenta de casa e um quer ter a pimenta mais forte que a do outro”, conta Zozo.

Além disso, o hélio dificulta a regulagem térmica do ambiente, tornando comum discussões sobre a temperatura. Como adicional, a umidade nas câmaras facilita o ataque de bactérias e fungos à pele, às unhas e aos ouvidos, como afirma o doutor Ricardo Vivacqua, um dos maiores especialistas em medicina hiperbárica do país.

Segundo ele, a situação ruim seria pior sem o sistema de confinamento. A câmara evita as doenças descompressivas. Causadas pelo escape de gases das células, elas podem levar à morte. “Quando você volta muito rápido à superfície, a pressão é diminuída e o gás forma bolhas no corpo”, explica ele, comparando a reação a uma garrafa de refrigerante quando aberta. Dos 28 dias confinados, cerca de dez deles são dedicados a dessaturação (o retorno à pressão superficial), segundo Vivacqua.

O médico já sentiu no próprio corpo a pressão a que os operários saturados são submetidos. Um mergulhador quebrou a perna durante uma operação de manutenção e, como não podia sair da câmara, teve de ser socorrido por Vivacqua do lado de dentro. “Saturei e montei um mini-Centro de Tratamento Intensivo na câmara”, diz o médico, responsável por avaliações constantes dos mergulhadores da Bacia de Campos (Rio de Janeiro). Ele reconhece que atualmente as doenças por descompressão são raras, superadas pelos problemas psicológicos. “Não é qualquer um que aguenta esse confinamento, o cara tem que ter uma cabeça muito boa”, diz.

Não é qualquer um que aguenta esse confinamento, o cara tem que ter uma cabeça muito boa Renato Vivacqua, especialista em mergulho saturado

Todos os mergulhadores saturados atendidos por Vivacqua são contratados da Fugro, empresa que, atualmente, está sozinha na realização dessa atividade no Brasil, sendo terceirizada pela Petrobras. “Qualquer setor com só uma empresa no mercado cai em qualidade de serviço e funcionários”, afirma Nélio César de Almeida, membro do conselho fiscal do Sintasa, sindicato da categoria, e mergulhador experiente que abandonou a atividade com dores na coluna. Máquinas são utilizadas em algumas atividades ou em profundidades maiores que 300 metros, mas ainda não substituem o humano. “O robô faz o feijão com arroz”, diz Sandro Zozo.

Após o acidente em 2012, ele não consegue mais entrar em um sino de mergulho. Tudo o que quer é mudar de função dentro da Fugro (discussão que está na justiça). Trip entrou em contato com a empresa, mas ela não se manifestou até o fechamento desta edição. Abalado, Zozo não topa nem colocar a máscara na cabeça para a sessão de fotos desta matéria. Ainda carrega a pressão de quem escapou da morte no fundo do mar.

Formação não saturada
Faltam cursos de especialização tanto para os mergulhadores quanto para os médicos que cuidam deles
“Deus é brasileiro e hiperbaricista.” Renato Rocha-Jorge toma a frase emprestada de um amigo para definir o mergulho no país. Ele é um dos sócios da Divers University, um dos poucos centros que ofereciam curso de mergulho saturado no Brasil. Atualmente, a formação na área é ministrada apenas pela Marinha no Centro de Instrução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché (Ciama). Ainda que restrita, a formação está aquém de padrões europeus, segundo Rocha-Jorge. “O mergulho brasileiro é amador”, diz ele. A norma reguladora da atividade, a NR-15, está defasada em 30 anos, enquanto o seu equivalente das Forças Armadas, a Normam, nem sempre é utilizado nos navios. A medicina específica também sofre. “Nem todo médico sabe tratar um mergulhador”, afirma Irene Demetrescu, instrutora da DAN, associação internacional dedicada à segurança de mergulhos recreativos. “A medicina hiperbárica não é tratada como especialidade, mas, sim, como área de atuação”, diz.


Matéria originalmente publicada na revista Trip de janeiro de 2014. Fotos por Caio Palazzo.

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