Punk rock e folk dividem o palco no primeiro dia do LFSM

“Distribuam pipocas aqui, isso aqui está parecendo um cinema!”, gritou Akiko Matsura para o público que a assistia, sentado, fazer um mosh mais sobre as cadeiras que sobre as pessoas. A japonesa é vocalista da banda Comanechi, que se apresentou nesta terça em Grenoble, sul da França, como parte do festival “Les Femmes S’en Mêlent”. Na lista do evento — que realiza concertos durante todo o mês de março em várias cidades francesas — apenas artistas ou grupos independentes nos quais as mulheres toquem, componham ou, como Matsura, tenham aquela saudosa e bem-vinda atitude punk.

Os três acordes, as roupas surradas e o faça-você-mesmo também são a base do Comanechi. A banda, nascida no Reino Unido, tem quatro anos de estrada e já abriu shows do Gossip e do Yeah Yeah Yeahs. Ano passado, o duo (na guitarra, Simon Petrovitch) achou que era hora caminhar por conta e lançou o disco “Crime of Love”. Com meia hora de duração, o álbum é uma porrada de chiadeira nos ouvidos. A dupla consegue misturar grindcore, crust e riot grrrl em doze faixas que, acreditem, são bem mais audíveis ao vivo.

Sobre o palco, uma diferença crucial no desempenho do Comanechi é deixar de ser um duo para ser um trio. Matsura sai das baquetas e assume só o microfone, deixando o trabalho para Dom Apa, baterista do Is Tropical. Ele dá mais variações à bateria marcada e enjoativa do disco, preenchendo a cozinha. Ganham músicas como a faixa-título, mais densa mesmo com o riff insistente de guitarra. Ganha também a japonesa que pode se dedicar ao trabalho de pular, gritar e fazer graça com a plateia: ela dividiu uma garrafa de vodka com a nobre audiência e até tirou uma foto do pessoal, que foi se acostumando pouco a pouco ao som do grupo.

Eles mesmos, sobre o palco, melhoram à medida que avançam na sua loucura. A faixa “He Hit Me” que, segundo a dupla, é uma “canção de amor”, poderia ter saído da primeira fita demo do Minor Threat. Se considerarmos só a letra, por outro lado, ela fica bem mais para Bikini Kill. Tanto faz: a ideia do Comanechi é fazer barulho com os discursos de uma mulher nada submissa, mas nem por isso defensora de alguma bandeira, seja feminista, anarquista ou outra “ista”. Se em estúdio eles precisam de muletas que ficam mais como entulho sonoro, no palco eles não têm firulas. É punk rock, pura e diretamente.

O lado triste da Finlândia

Antes da zoada do Comanechi tomar a casa de shows Le Ciel, foi a vez de a cantora finlandesa Mirael Wagner subir ao palco. Com apenas um violão e poucas palavras entre as canções, a jovem tocou boa parte de seu recém-lançado álbum de estreia, que leva seu nome. O silêncio da cantora era parte da atmosfera do disco, de faixa a faixa, sombria e melancólica.

Mirael tem influências do rol do folk norte-americano, como Bob Dylan e Leonard Cohen. Seus temas nas cordas dedilhadas são insistentes e, sobre eles, ela canta ora com voz de uma velha xamã, ora com voz uma garota tristonha. No palco, essa característica some aos poucos. Se ela é nítida entre as faixas “No Death” (que fala de um amor morto-vivo) e “The Well”, ao vivo as canções acabam numa única toada. O show torna-se monótono, muito embora as composições tenham seu valor. O desconto é que tudo é muito cru: seu estilo e a própria cantora, que não tem outros artifícios além de sua voz, violão e letras. Este, é de sua escolha, aquele, pode ganhar mais forma com o tempo.

(Texto originalmente para o Portal MTV.)

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