Quando a música ocupa o espaço

Em 2010, conversei com o artista alemão Aram Bartholl, aí na foto. À época, ele acabara de sair de uma residência no instituto EyeBeam e tocava o projeto Dead Drops — o que motivou a nossa conversa. O negócio era o seguinte: Aram incrustava pen drives nas ruas de Nova York. Incrustava pra valer, com massa corrida e tudo. Feito isso, ele divulgava pela internet os lugares onde estavam as memórias flash e convidava os transeuntes da rede virtual a virarem transeuntes da rede física, os espaços públicos premiados com pen drives. Bastava encontrar a porta USB e conectar algum dispositivo.

(Na mesma semana que conversei com ele, banquei o Hunther Thompson e resolvi fazer meu Dead Drop. Ele durou o tempo entre o último ajuste na massa corrida e um saque no caixa automático em frente ao lugar que, então, de Dead Drop só tinha o Drop, o buraco do pen drive levado.)

“A ideia principal do projeto é levar a pessoa e seu gadget para a rua, trocar dados lá, compartilhamento vem em segundo plano”, me disse Aram. O artista tangenciava esses limites entre troca e compartilhamento, espaço real e espaço virtual, rua e rede. Concepções cheias de sentidos e, por isso mesmo, exploráveis. O projeto Out of Woods, inspirado no projeto dos pen drives, resolveu explorar esses conceitos com música.

Os autores do Out of Woods são os alemães do Reallay. A convite deles, seis músicos compuseram seis canções, uma para cada um. Ao coletivo artístico coube inserir os arquivos em pen drives e espalhá-los em uma floresta perto de Berlim. Além disso, eles marcaram os locais onde estão cada pen drive: no mundo real, com faixas amarelas; no mundo virtual, com marcadores no Google Maps.

A brincadeira continua com quem for até a floresta ouvir as árvores. O coletivo lembra que é preciso um GPS e um dispositivo que leia arquivos de áudio via USB.

Mais que a nova forma de divulgar, o curioso aqui é a nova forma de ouvir música. O assunto toca questões abordadas aqui no blog há alguns dias. A que mais se destaca é a relação entre música e espaço, uma vez que a ideia do Out of Woods é levar as pessoas para um outro ambiente, para o qual a música foi criada e com o qual ela terá alguma relação — “levem roupas quentes” alerta o coletivo para os excursionistas; “organic tech” é o gênero das composições.

Não só a dupla espaço-som perde força com banalização dos arquivos digitais, tocadores portáteis e fones de ouvido. A dupla espaço-música também enfraquece, ao menos como costumávamos conhecê-la. O blog da revista britânica Gramophone publicou há pouco tempo um editorial sobre como os hábitos de ouvir música vem mudando. Na lista, a perda da experiência musical em grupo em detrimento da experiência musical individualizada, com cada um imerso no seu alto-falante, na sua playlist do Grooveshark, no seu mundo.

Outras vítimas são as lojas voltadas aos consumidores de música — lê-se, em 2012, lojas de CD. Em São Paulo algumas minguam pelo Centro, pela Teodoro ou pela Paulista. Sair do conforto do lar, do Google e do iTunes em busca de música deixa de ser comum. Tentativas como Record Day Store procuram retomar esse ótimo desconforto. O disco, que insistirá em voltar até inventarem um formato digital de qualidade comparável, também ensaia essa retomada. A bolacha é um corpo físico e, já nos ensinou Newton e amigos, ocupa um espaço.

O contraponto que pode ser feito são o dos benefícios trazidos pelas novas relações com a música, mas eles são mais evidentes que os efeitos colaterais. Ainda mais, esse contraponto não se sustenta porque os novos modos de se dar com música não são excludentes dos modos antigos. Eles podem coexistir, tais quais meios como rádio e TV coexistem até hoje, e até se estimular uns aos outros.

Quão bela é a linha cronológica que se desenrola desde descobrir uma banda na internet, baixar uma música, comprar um disco, ir a um show e indicar o artista a um amigo.

Não precisamos imaginar tanto. Ora, não fossem os arquivos digitais, o projeto Out of Woods não existiria. O seu objetivo, entretanto, está além da rede virtual — ainda que, definitivamente, não defenda essa separação entre real e virtual; não desse jeito. Ir a uma floresta atrás de cabos USB ou a uma loja de discos significa ocupar espaço por e para música. Mais ainda: significa ocupar espaço público por e para música, como já fazem os shows em espaços abertos e, mais recentemente, audioguias.

Quão bela, novamente, é a música como alavanca para levar gente às cidades (ou às florestas), algo tão necessário em tempos de supermercantilização da cidade, conformismo arquitetônico e leis antipessoas.

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