Quem é você na noite?

Dia desses eu caí no site minigroup.com.

Mais uma daquelas mídias sociais que não vai pegar. Nesse caso, pelo simples motivo de que ele quer fazer o que o Facebook, o Twitter e o Tumblr, entre outros, têm feito: compartilhar a vida de seus usuários.

Não fosse por isso, o minigroup teria chances de sucesso. Isso porque reproduz algo que acontece naturalmente na sociedade: os filtros.

A proposta do serviço é oferecer vários perfis agrupados num único espaço, de modo que ele separe suas atualizações por grupos. Isso evita que aquela foto em que você está bêbado no seu revéillon chegue aos olhos da sua chefe ou que seus amigos do bairro (lê-se condomínio) recebam informações chatas sobre algum relatório.

Agrupar é a alavanca do processo de filtragem no minigroups — e na própria sociedade. Relacionar pessoas com um lugar ou uma atividade é relacionar afinidades e conhecimentos. No trabalho falo sobre notícias. Na faculdade falo sobre as novidades da última festa. Mais: no trabalho falo de um jeito, na faculdade falo de outro jeito.

São mudanças sutis e por vezes nem nós mesmos percebemos, ainda que atinjam outros níveis. Quem nunca se pegou falando com um sotaque da família que mora distante após alguns dias de visita? A contaminação da linguagem, que pode ficar só na sintaxe, chega à fonética.

Ainda assim, muitas vezes as coisas se perpassam. Ninguém é pétreo a ponto de falar só de trabalho no trabalho e só de aula na aula, mas, como em qualquer canal aberto, pode ser que escape algo que não devia. E aí caímos no erro de falar a coisa errada, na hora errada e no lugar errado. Que dirá quando isso é na internet, que tem histórico mais acessível que muitas memórias biológicas por aí.

Ter vários perfis não é enganar ninguém, mas é saber lidar com algo que fazemos no dia-a-dia: ser várias e diferentes mesmas pessoas, como promete o minigroup.com.

O compartilhamento, seja digital ou real, pode ser visto como um diagrama de Venn. As áreas sobrepostas seriam o que entendemos pelo compartilhar propriamente dito: dividir, divulgar, mostrar. As áreas isoladas são a antítese guardada na tese, isto é, o não-compartilhar propriamente dito: não-dividir, não-divulgar, não mostrar.

É postar fotos e pensamentos para apenas algumas pessoas — como promete o minigroup e como já faz o Facebook.

É evitar que sua chefe saiba do lado B-bêbado.

Talvez isso faça parte da lógica da rede, sobre a qual fala com muita propriedade Augusto de Franco (bola cantada pelo @mateusiglesias). Vale conhecer mais a fundo.

Facebooktwitterredditpinterestmail
[ssba]

One thought on “Quem é você na noite?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *