Será só futebol

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O apito final soou como um silvo agonizante de monitor cardíaco. Faltariam palavras para escrever o aconteceu na partida entre Brasil e Alemanha do dia 8 de julho de 2014. Passadas algumas horas, a rede — que, para alegria de Barbosa, não havia em 1950 — fez seu trabalho. Retumbou a maior derrota da história da Seleção Brasileira sob diversas análises, ideologias, piadas rasas, dramas teatrais e pranchetas táticas.

O tempo, falastrão, dirá quais cronistas ganharão o privilégio da exceção à regra (clara) da história, cujas páginas são dedicadas aos vencedores. Enquanto o calendário não passa para deslumbrar o tamanho da cratera e desanuviar o futuro do pós apocalipse, vale recorrer a Gilberto Freyre e seu olhar aguçado de pena afiada.

O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura. A capoeiragem e o samba, por exemplo, estão presentes de tal forma no estilo brasileiro de jogar que de um jogador um tanto álgido como Domingos, admirável em seu modo de jogar mas quase sem floreios – os floreios barrocos tão do gosto brasileiro – um critico da argúcia de Mario Filho pode dizer que ele está para o nosso futebol como Machado de Assis para nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado nos entre tropicais. Em moderna linguagem sociológica, na situação de um apolíneo entre dionisíacos. O que não quer dizer que deixe de haver alguma coisa de concentradamente brasileiro no jogo de Domingos como existe alguma coisa de concentradamente brasileiro na literatura de Machado. Apenas há num e noutro um domínio sobre si mesmos que só os clássicos – que são, por definição, apolíneos – possuem de modo absoluto ou quase absoluto, em contraste com os românticos mais livremente criadores. Mas vá alguém estudar a fundo o jogo de Domingos ou a literatura de Machado que encontrará decerto nas raízes de cada um, dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca. Com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassibilidade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas de qualquer modo, dança. (Prefácio de “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho)

A derrota de 7 a 1 foi a derrota da capoeiragem, do samba, do barroco, da literatura, da molecagem, da malandragem e do tal apolíneo-dionisíaco — um gol por vez. Por 90 minutos, o Brasil ruiu frente ao carrilhão germânico, bárbaro e odiosamente polido, pois nem a brecha da ofensa nos foi dada. Da maneira como aconteceu, a derrota nos tirou a folha de identidade colada à primeira página do passaporte com salvo-conduto para qualquer lugar do mundo.

Mas é só futebol. E a capoeiragem, o samba, o barroco, a literatura, a molecagem, malandragem e o tal apolíneo-dionisíaco sobreviverão para reaparecer de tudo quanto é jeito. Muito cedo ou pouco tarde, estarão em novas equipes, times, seleções e, mais importante, peladas, altinhas e jogos de várzea. Com a bola no campo, esses jogadores farão coisas que, de tão simples e belas, serão só futebol.

Não se trata de mística, sebastianismo, catolicismo, espiritismo, pachequismo, scolarismo. É ceticismo do mais racional possível.

Há cem anos o Brasil vive na bicicleta de Leônidas, nos passos falsos de Garrincha, na inteligência de Sócrates, nas firulas de Ronaldinho, na astúcia de Romário, no reinado de Pelé.  Serão precisos pelo menos mais cem anos para que essas coreografias caiam por e pela terra batida dos campinhos. Mais duzentos anos para que símbolos nacionais produzidos, como os bandeirantes do positivismo, tomem espaço de manifestações populares. E mais trocentos anos para que a representação de um povo não se reduza a alguns heróis encarnando um poder mágico em um picadeiro panóptico —  ou só futebol, que nesses últimos cem anos pouco mudou suas regras para se adaptar a atletas cada vez mais sobre-humanos.

No Brasil, ainda será só futebol mesmo que a gestão da santíssima trindade CBF-Cartolagem-FIFA continue a sucatear o esporte com a extrema unção de uma parcela global da imprensa. E como disse uma amiga, quem dirá que foi feio se, daqui a quatro anos, voltarmos a ganhar só com futebol? Como a Argentina pode fazer no domingo, caso vença a Alemanha.

Dirão, com razão, que foi injusto. Não a injustiça agridoce do pior que vence o melhor, mas, sim, a injustiça que se esbalda na estrutura futebolística: um círculo de anciãos que teima em ceder espaço a novos dirigentes, técnicos conservadores e antiquados, contratos cujo retorno financeiro é desigual e questionável, campeonatos com baixíssimo nível competitivo (se muito, disputados),  sub-empregos em times fora das grandes capitais, o esporte disfarçado de salvação messiânica, entre tantos outros que já são sabidos desde que o Brasil é só futebol.

Nessa balança cética, é mais fácil acreditar no sete pintado de Gilberto Freyre que em alguma mudança substancial. Organizações do futebol não dão a mínima satisfação a ninguém. Pragmaticamente, o poder supranacional da FIFA é maior que a ingerência da ONU. Como a revolução é um sonho, que seja um sonho tropical, antropofágico, manguebeat. Mais vale absorver o que há de bom que importar uma panacéia alemã. Idolatrar um modelo internacional pode trazer resultados até piores que a estagnação. Crer nessa solução equivale a dizer que o Brasil não é um país melhor porque não fomos colonizados pelos britânicos.

Mas crer nessas mudanças é utopia. Pouco será feito nos próximos quatro anos. O futebol, para os manda-chuvas, será só futebol. E para quem joga, será só futebol. E de tempo em tempo o Brasil será só futebol. Bêbados, vamos acreditar na vitória, mesmo que as eliminatórias sejam difíceis, mesmo que a Copa América seja vergonhosa, mesmo que ganhemos a Copa das Confederações — vale algo?

Embora fique o carimbo do 7 a 1, nosso passaporte ainda tem as credenciais da capoeiragem de um lance plástico, do samba duma tabelinha, do barroco entre firula e objetividade, da literatura de um novo esquema tático, da molecagem do improviso, da malandragem da catimba e até o tal apolíneo-dionisíaco, coisa de gênio para gênio. Itens que, embora escassos na safra de 2014, dão no pé por aqui.

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