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Jornalismo

Cem anos de prostituição

As bochechas coradas, as pernas rotundas, as vozes ternas, os cabelos brancos. Há quem veja nessa descrição uma avó perfeita. Há quem veja um corpo excitante. Há quem veja tudo isso em dobro. “Nós sempre fomos mais que putas”, diz Louise Fokkens. Ela e sua irmã, Martine, são as prostitutas mais antigas de Amsterdã. E são gêmeas.

Louise nasceu pouco antes de Martine. Louise sempre foi a primeira em tudo. É ela quem fala à Tpm. Com 20 anos, Louise também deu início aos trabalhos da dupla. Forçada pelo marido a se prostitur, logo se livrou dos jugos dele para cair na vida com as próprias pernas. Martine veio a seguir. “A maioria das garotas faz isso porque não tem muitas opções”, diz Louise.

Cultura, Jornalismo

Semente uruguaia

Raquel Peyraube acende um cigarro. Não é maconha, é tabaco. “Não uso marijuana”, avisa com arrastado sotaque castelhano. A uruguaia é uma das maiores especialistas em entorpecentes do mundo. Ela é uma das lideranças que colocaram em curso a legalização da maconha no Uruguai. O resultado dessa luta veio em maio de 2014, quando o presidente José Mujica sancionou a lei que prevê a produção e o consumo regulamentados da Cannabis no seu país.

Hoje, Raquel é assessora do Instituto de Regulação e Controle da Cannabis, órgão criado com a recente lei, e também diretora clínica do Iceers, ONG global para promoção de terapias médicas naturais. Ocupada em se certificar de que a lei tenha a eficiência desejada, a médica arruma tempo para palestrar e discutir com líderes de outros países. Ela acredita que a aprovação da lei é tão importante quanto sua divulgação. “O Uruguai mostrou que existe uma mudança possível, mas cada país tem de buscar sua própria mudança”, afirma.

Em entrevista à Tpm via Skype, Raquel falou sobre sua jornada no Uruguai e comentou questões brasileiras.
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Música

O Bin Laden está no Brasil e agora é funkeiro

Bin Laden não morreu. Ele não tem barba grande, não usa turbante, nem é islâmico, mas ele tem um séquito fiel, bomba pra cacete por onde passa e fica muquifado em algum lugar de São Paulo. Eu colei no esconderijo desse Bin Laden e posso garantir: ele toca o terror e, em vez de sandália de pastor afegão, ele usa um chinelão de borracha — mas só quando acorda.

“Bin Laden Não Morreu” é o nome da música que transformou o MC Jeeh 2K em MC Bin Laden. Jefferson Cristian dos Santos de Lima tem 20 anos e nasceu na favela da Vila Progresso, Zona Leste de São Paulo, mas ele só fica em casa em dias de folga, quando tem tempo para a namorada ou para a Igreja. Talvez mais famoso entre os leitores do Noisey pelo “Passinho do Faraó”, ele canta funk proibidão há seis anos e nunca largou o evangelho.

“Posso abandonar tudo, mas não abandono Deus por nada”, disse ele durante a entrevista, pouco depois de acordar às 11h de uma sexta-feira. É a hora em que o galo e o pau cantam na KL Produtora, comandada pelo empresário do funkeiro, Emerson Martins. Sem muita cerimônia, ele desperta o bonde do MC depois de uma noite de dois shows e pouco sono.

“Acorda aí que chegou a imprensa!”, fala a chefia. Aos poucos, umas dez pessoas amontoadas em meia dúzia de beliches abrem os olhos sob a mistura densa de suor da correria passada, pó da parede rebocada e cheiro de cobertores jogados. Bin Laden esfrega a cara, senta na cama e me cumprimenta com simpatia, mas ele ainda precisa de um tempo pra se orientar.

Meia hora depois o funkeiro começa a explicar suas músicas com histórias de erva, sequestros e assaltos. “Eu queria cantar proibidão, mas um negócio teatral”, explica. Ele chama seu show de Baile do Afeganistão e seus dançarinos de Iraquianos. “O Bin Laden tinha várias pessoas que andavam com ele. Eles dois ficam assustando a galera”, diz.

Saddam e Salim chegam junto e se posicionam que nem leões de chácara persas ao lado do MC. De vez em quando eles falam um idioma inventado. É uma piada interna do naipe do cabelo e da sobrancelha do Bin Laden, mas esses viraram moda. Preto e branco no estilo Tony Country — vem de Town & Country, marca que usa o Ying Yang nas estampas. É o bem e o mal.

“Nóis é bom, mas não é bombom”, dá a letra o MC. Ainda assim, ele é bem generoso. Se você encostar num show com a cabeça meio-a-meio, talvez ganhe um presente do próprio Bin Laden. Pode ser um relógio ou um boné, ele diz, mas nada que vá te deixar chapado. O funkeiro canta sobre maconha e lança, mas não usa. “Só faço música na brisa dos outros”, conta.

O flow do funkeiro vai rápido na marcação dos cliques de revólver ou explosões de granada. À exceção de músicas como “Lança de Coco” (que parece uma versão dopada do finado “Harlem Shake”), a maioria de suas letras está entre “O Quinto Vigia”, do Ndee Naldinho, e “157 Boladão de AK47”, do MC Frank. Ele não faz ostentação. “Não tinha dinheiro e pensava: a ostentação está me influenciando a gastar o que eu não tenho. Resolvi cantar proibidão”.

Na conversa, Bin Laden lança a real: “O funk se chama favela”. Ele também fala sobre histórias de algumas músicas, apologia a drogas e de seu próximo atentado, marcado para 11 de setembro. Ninguém vai morrer, mas o cara quer parar o mundo com seu novo clipe. Se bobear, vai tocar fora do Brasil. “Só não vou pros Estados Unidos!”, diz ele, enquanto ri do nome.

Achei bem firmeza o clipe de “12 Calibre”. Você que teve a ideia?
MC Bin Laden: Foi. Eu tive a ideia, queria gravar um bagulho diferente. Nem falei com meu empresário. Falei com o menino que faz os vídeos e ele falou que essa ideia era muito louca. Aí fui filmando. Fui dando o peão, fui fazendo naturalmente. Comprei o Carlton, o vinho e foi natural porque não tem mais isso no funk. Acho que as coisas ficaram muito superficiais.

De um tempo pra cá tem muito clipe parecido, do KondZilla, do Tom Produções. Esse clipe é diferente dos clipes de ostentação.
O meu som é puxado mais pela origem do funk. A origem do funk não é ostentação, a origem vem de muito tempo atrás. O funk foi se aprimorando, se revolucionando, e eu não tenho nada contra o funk ostentação, mas pra favela o ostentação é muito pesado. O cara que sai pra trabalhar hoje consegue tirar um salário de R$ 800, R$ 1.000. Pro cara ostentar na balada é muito difícil. Se ele ostenta hoje, amanhã ele já não tem dinheiro, não tem condições de comprar um alimento pra goma dele, não pode comprar uma roupa e às vezes não tem dinheiro nem pra ir no cinema com a namorada porque ostentou no camarote da balada, gastou tudo. Eu sempre fui favelado, não tinha dinheiro e pensava: a ostentação está me influenciando a gastar o que eu não tenho. Eu tive umas ideias e resolvi cantar proibidão. Já cantava há anos e eu não queria parar. Quando eu vim na produtora eu falei que não queria cantar apologia, queria cantar proibidão, um negócio teatral. Que fosse o Bin Laden, mas com seus bonecos no palco, tendo uma história. O show mesmo é entretenimento. Muita gente fala que nas músicas eu falo de maconha, lança, mas eu não estou influenciando o povo a usar. É uma forma de se expressar sobre o que acontece hoje. Na televisão eles mostram um pouco da verdade nas novelas, mas escondem muito. Se eu estou fazendo errado, a TV também está.

Você fala mais de lança, de ganja…
De brisa, de dança. Eu não falo que isso é algo cultural porque se eu disser isso a sociedade não vai aceitar, mas é a verdade, mano. Se você for em todos os fluxos de São Paulo, Brasil afora, os caras vendem lança dessa forma. “Olha o laaança.” Essa parte da música surgiu porque eu colei em São Mateus e tinha um moleque vendendo assim: “olha o lança, quem não bafora não transa”. Achei da hora e pus na música. Virou uma brincadeira também. “Ô, pai! Não tô gripado!/Me dá lança perfume que deixa com pé gelado.” Foi algo mais pra ser brincadeira, mas o povo tem uma ideologia diferente. “Olha o MC querendo influenciar.” Hoje, criança de 11 anos já cresce sabendo o que é droga. Não é a gente que influencia. Eu tenho um irmão de 11 anos e eu falo de drogas pra ele desde os 8, desde os 9. A educação é diferente.

E suas outras músicas. Tem uma com o Kadaffi. Ele é angolano?
Ele é da Angola, sim. Mas a gente ainda não trabalhou essa música, a gente ainda não divulgou. A intenção não é divulgá-la ainda. Ela vai vir como se fosse uma surpresa pro funk. Ele aparecendo e mandando o rap terrorista! A voz do cara é da hora, tio.

Quantas músicas você tem lançadas?
Ao todo acho que 57 músicas. No CD tem 18 músicas, mas como lanço música toda a semana eu tenho na internet umas 20 músicas. Lancei tudo em um ano.

E como você faz as músicas?
No dia a dia mesmo. Estou aqui, surge uma ideia, gravo um áudio e depois começa. Às vezes eu nem escrevo no papel. Gravei a “Bololo Haha” e nunca botei ela no papel. “Lança de Coco” eu nunca escrevi e a “12 Calibre” também não. Escrevi as mais difíceis. “Bin Laden Não Morreu”, “Sequestro da Filha do Coreano”, “Senhor das Armas”, “Madame do Crime”. Essas eu passei pro papel, fiz rima com rima. Eu já sou meio doidão, faço rima de cabeça. Eu fico matutando. O povo acha que eu sou louco e eu só estou aqui pensando. Aí eu chego do nada e falo: “Aí, rapaziada, se liga nessa música”. Tatatatá, vou cantando. E os caras falam: “De onde veio isso?”. Jesus me deu o dom.

E suas músicas giram tudo em torno desse lance de aventura, crime.
Eu não gosto de exaltar o crime porque eu não quero que meu irmão seja influenciado a ser criminoso. Quero que o povo ouça a verdade. Eu sei que se eu falar a verdade, o que rola nos fluxos, eu vou falar pelo Bin Laden. É um personagem. Faço músicas teatrais. Tem uma música que é muito rápida. [Canta “Bin Laden Não Morreu”].

É meio rap essa aí. Você curte?
Curto bastante os Racionais MCs. Hoje eu não tenho tempo pra escutar. Gostava de Ao Cubo também, porque sou evangélico. É difícil falar, mas antes de entrar no funk eu já era evangélico. Cantar a verdade é o que acontece nas ruas. Não canto apologia porque não quero conflito, só quero fazer meu trabalho, ajudar minha família e fazer meu ganha pão. Não quero conflito com ninguém do crime, da política, da rapaziada que anda fardada e faz seu trabalho na rua. Muita gente fala “pô, proibidão!”, mas é um proibidão muito diferente. Saiu no G1 que eu era MC de ostentação, mas não sou. Se eu for cantar ostentação eu vou pra classe A, começo a cantar pra aparecer na televisão, pra ir pra fora do país. Aí mudo até o gênero musical. Vou pra um forró, alguma coisa assim, porque o funk não é isso. Funk pra mim é o que eu canto, que foi cantado muito tempo atrás. Todo mundo esqueceu de cantar isso por causa da televisão.

O que é o funk então?
O funk, na minha opinião, são aqueles moleques que estão na favela jogando bola, alegres, cantando, se divertindo. Não se iludindo pelas mentiras. Como uma criança de favela vai crescer achando que vai ter uma Ferrari? Pô, como o cara vai trabalhar pra ter uma Ferrari? O cara não vai trabalhar pra sustentar a casa, pra ser um pai de família. O funk se chama favela. Várias classes altas conhecem nossa música. O tratamento é igual se você tem ou não tem dinheiro. Todo mundo é igual. E muita gente fala que tem playboy que quer ser igual a favelado. Pra mim, o funk está dentro da favela e não tem outra coisa a se declarar.

E quando você entrou no funk?
Há uns 6 anos, na favela da Vila Progresso. Eu estava lá fazendo umas rimas e o DJ de lá falou pra eu virar MC. Eu cantava debaixo do chuveiro, ficava cantando, teve uma vez que passei uns 40 minutos no banheiro, esqueci até de passar sabonete. Só fiquei cantando. Meu pai chegou falando um monte. E eu tinha outro nome. Era MC Jeeh JK meu nome. Era a mesma coisa. Mas aí eu conheci a KL Produtora e a gente começou a fazer um trabalho diferente. Em menos de um ano aconteceu o que está acontecendo. Acho que ainda não explodi. Sou conhecido e vou lançar três videoclipes até o fim do ano. Mas teve uma época que eu dei uma parada com o funk porque não estava dando muito certo, aí comecei a frequentar muito a igreja evangélica. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

Quando isso?
Tem dois anos. Eu sempre ouvia muito o evangelho, gostava de ouvir as pessoas falarem, gostava do nome Jesus Cristo. Eu comecei a ir no culto, conhecer mais, praticar, comecei a buscar. Quando conheci isso, minha vida estava de cabeça pra baixo e Jesus Cristo deu uma retomada. Ele viu aquilo que eu estava vivendo e deu uma reviravolta. Aconteceram problemas de amizade, falavam de mim coisas que não eram verdade, estava com problema no meu namoro, aconteceu coisa com a minha família e Jesus começou a me abençoar. Posso abandonar tudo, mas não abandono Deus por nada. Muito MC hoje tem o sonho de estourar. Fico pensando: e se ele estourar? No começo ele vai ajudar a família, comprar roupa, mas e depois? Ontem fui fazer um show e um MC falou: “Pô, dá valor a sua carreira. Você não é MC de três meses, você só tem música diferente”. Eu poderia ser assim por causa das drogas, mulheres, bebidas. Se eu chegar na balada, tem muita menina que vai querer ficar comigo não pelo que eu sou, mas pelo status e pelo nome. Antes de me conhecer mesmo. Tô firmão. A mina vai falar que é mó gostosa?! Pode ser Juju Salimeni, Sabrina Sato, quem for, eu tô pouco me importando. Foi ela quem andou comigo a pé? Foi ela quem passou fome comigo?

Você tem namorada?
Tenho. Dou o maior valor a ela. Vou pro terceiro ano. Ela me apoia, tem ciúmes, mas eu sei separar muito. Eu dou muito valor a meus fãs. Pode estar quem estiver aqui com a gente, mas se estiverem três fãs meus eu vou dar atenção a eles. Tem que ir pra outro show e tem fã pra tirar foto eu abro a janela, pulo do carro. A pessoa saiu da casa dela, gastou dinheiro pra me ver, gastou tempo, está lá cansada e não vai conseguir foto? Eu sempre fui fã do MC Tikão e um dia ele tocou em Osasco numa matinê. Eu saí do baile às 23h30. Pedi a Deus pra segurar o último trem e a última perua pra eu chegar em casa. E pra chegar? Eu não tinha o dinheiro da condução. Foi na boca e na conversa. Hoje eu dou muito valor. Tem fã que pinta o cabelo, faz a sobrancelha igual a minha. Até assusta!

Já viu alguém com tatuagem com seu nome ou algo assim?
Eu não gosto muito que façam tatuagem com meu nome porque eu sou muito evangélico e não quero fazer tatuagem. Prefiro que pintem o cabelo, façam uma meia preta e branca, pinte a sobrancelha, dê um estilo diferente. Até gosto de ver tatuagem no corpo dos outros. Em mim mesmo eu não gosto. Muita gente fala que eu tenho que ter tatuagem, que tenho que ser um MC com tatuagem. Não tem que ter nada, tem que cantar.

Você que lançou o estilo Tony Country e a sobrancelha?
Eu que lancei.

[Nessa hora, os dançarinos dele chegam na sala. Um deles fala uma única frase em português antes de assumir o personagem.]

Saddam: Nóis toca o terror no baile!

MC Bin Laden: Eles estão desarmados, mas no baile é com fuzil. Quando a gente lançou o Tony Country muita gente desacreditou, dava risada. “Esse moleque é doidão, tio! Tem coragem de andar na rua assim?” Tenho! Essa é minha marca. Todo mundo vai fazer igual. Até aqui mesmo na produtora falaram. “Venhamos e convenhamos, Bin Laden. Acha que o povo vai querer fazer igual você?” No outro dia meu empresário pintou porque ele acreditou nisso. Ele chegou numa produtora, na Maximo, e os caras falaram que ele estava loucão. Daí ele falou: “Você vai ver meu artista! Todo mundo vai pintar o cabelo que nem ele!”. Eu dou um presente pra todo mundo que tem o cabelo pintado no meu baile. Se eu estou de boné, dou o boné, se estou de relógio, dou o relógio. Nem faço pra ganhar mídia, eu faço para parabenizar meu fã.

E você nasceu onde?
Nasci em SP, sempre morei na Vila Progresso. Depois fui morar na Celso Garcia, num antigo mutirão que tem até hoje lá, e como minha mãe não tinha condições de me criar financeiramente, eu voltei pra Vila Progresso.

Você vai gravar um DVD nessa semana?
Dia 15 de agosto. Vai ser a primeira gravação. Tudo nosso é diferente. Posso adiantar que vai ser gravada uma parte do DVD. Ele vai ser gravado em Sorocaba, na capital, onde tiver fã do Bin Laden. Depois vamos juntar todas as partes. Quero que todo mundo participe do meu DVD, assim como quero meus fãs no meu videoclipe. Eu convido meus fãs. Encosta que vai ter videoclipe. Quero que eles participem. Vou gravar o “Lança de Coco 2”, depois “Bololo Haha” e “Bin Laden Não Morreu”, que vai ser uma mega produção. Vou lançar no dia 11 de setembro. Se prepara que o negócio vai ser… Nossa intenção não é nem parar São Paulo ou o Brasil. É parar o mundo!

E de onde vem essa história de Bin Laden?
Eu tinha essa música do Bin Laden, “Bin Laden Não Morreu”, há mó cota. Resolvi fazer porque não tinha esse vilão. E o funk proibidão é marcado pelos vilões. Tinha o Coringa, o Charada, na minha quebrada tinha o Pinguim. Mas eles não deram continuidade no trabalho. O único que está aí até hoje é o Coringa, que é o Cauã.

Aí você fez a música e mudou o nome?
Eu era MC Jeeh JK, e meu show era sempre pra cima, agitadão. Aí meu empresário falou pra eu mudar de nome. Topei, aceitei a proposta de trabalho deles e mudei o nome. E funcionou.

E Os Iraquianos?
Tem Os Iraquianos e quero que tenha uma menina, a Iraquiana. Eles dois ficam assustando, encenando. O Bin Laden mesmo tinha pessoas que andavam com ele. Muita gente falava que eu tinha que ter também. Aí vieram os bonecos do “Lança de Coco”. Eles viraram os dançarinos, mas aí a gente pensou em fazer o Baile do Afeganistão com os dançarinos do Bin Laden e os dançarinos do Lança de Coco. Aí esses dois aqui viraram os oficiais. Eles estão sofrendo comigo, batalhando comigo.

[Bin Laden fala alguma coisa em um árabe inventado com os dançarinos. Eles respondem e os três racham o bico.]

A gente é muito unido. O Bin Laden não é só o MC, tá ligado? Tem o meu produtor, tem o meu DJ, tem os dançarinos do “Lança de Coco”, tem muita gente. A gente dorme junto aqui na produtora, a gente ensaia, come, bebe, joga videogame junto. Se eu fumasse, fumava junto com eles. A gente é uma família. Somos 15. O Bin Laden não é só eu. Eu não gosto de ganhar pontos sozinho. Todo mundo faz um trabalho para eu chegar no palco. E eu gosto de trabalhar a imagem deles também. Se eu não trabalhar a imagem deles pode parecer que amanhã eu vou pegar outro dançarino, mas não é isso.

Você não fuma mesmo?
Não. Só faço música na brisa dos outros.

E pra fechar, como tem sido a rotina de shows?
Eu estou abençoado. Tenho feito três shows por noite, na média. Vim do Mato Grosso do Sul ontem e vou pra BH dia 22 desse mês. Se eu for pra fora, só não vou pros Estados Unidos, né!?


Matéria originalmente publicada em setembro de 2014 no Noisey. Fotos por Anna Mascarenhas.

Música

Mac DeMarco: despretensão resistente

Mac DeMarco tocou em meados de maio último no Brasil. No palco, dá para ver que o título de queridinho indie — da Pitchfork à Spin — vai bem a calhar. Não há pretensão nenhuma no seu mise en scène, que vai das paletadas rasgadas aos arrotos e piadas rancheiras. O ato, menos teatral que de atitude, preenche uma lacuna perseverante em meio a tanta produção maquiada. É uma resistência dissimulada.

Na última meia hora do show no SESC Belenzinho o canadense encarnou o moleque com hora de ensaio sobrando no estúdio: já que não tem música pra tanto tempo de palco, se mete a tocar Metallica e imitar o Eddie Vedder que, segundo a conversa abaixo, nem são suas referências.

Mac DeMarco

Mac DeMarco tem diastema. Se ele fosse mulher, magra, loira e alta, certamente estaria entre as mais cobiçadas modelos do mundo. Sabe como é… A indústria dos padrões tem pagado alto para manter-se dentro dos padrões enquanto põe só um pezinho fora deles.

Mas Mac DeMarco nem liga pro seu diastema – tampouco para os padrões. Seus dentes separados são mais um sintoma de sua personalidade que de algum problema ortodôntico. Para entender isso basta olhar sua conta do Instagram com imagens toscas e vídeos de arroto.

Claro que uma conversa deixa mais evidente essa história de pouco se lixar. De Vans rasgado, calça de pular brejo manchada de mostarda, camiseta surrada e boné de promoção, o músico canadense encontrou a Trip para trocar uma ideia.

Dá pra somar nessa conta barata a guitarra japonesa de trinta dólares que ele comprou quando começou sua última banda, a Makeout Videotape. Manteve o instrumento na carreira solo e não pensa em trocar. “Eu gosto do som e do jeitão dela”, diz ele.

Sua música cai bem nas cordas gastas e presas por um capo — espécie de presilha colocada no braço da guitarra. Os acordes suspensos e notas dobradas são de um bluesman que, em vez de ser Jimi Hendrix, escolheu ser Bob Dylan. Mais punk, é verdade.

Nesse caminho, DeMarco parece ter parado em algum lugar entre os anos 80 e 2000. Canções como “Viceroy”, “Cooking Up Something Good” e “Rock and Roll Night Club” mantem um ranço de fita cassete, mas são baladas pra degustar com um tocador de MP3 com streaming.

Abaixo, o artista canadense fala sobre as distâncias encurtadas pela internet, método de composição e álbuns que são referência. Como ele não liga pra muita coisa, também mete o pau na cena musical de Montreal e na molecada que só faz música no quarto.

Como você começou a fazer música? Imagino que tenha sido na adolescência. Mac DeMarco: Comecei a tocar violão quanto eu tinha uns 14, 15 anos. Aprendi a tocar e comecei a assistir a shows até que pensei: eu poderia tocar numa banda. Aí fiz minha primeira banda quando tinha uns 17 anos.

Então você teve outras bandas além da Makeout Videotape? Sim. Eram todas bem engraçadas. Tive uma banda de “joke rock” chamada The Meat Cleaver, uma banda de R&B chamada The Sound of Love e uma outra com um amigo chamada Outdoor Miners.

E em todas essas bandas você usou sua guitarra de trinta dólares? Na verdade eu comecei a usar bastante a guitarra com a Makeout Videotape, minha última banda. Era uma guitarra japonesa barata.

Você ainda usa essa guitarra? Sim. Eu gosto do som e do jeitão dela.

Você usa bastante o capo, né? É, sim. Eu comecei a usá-lo porque as cordas saíam das casas e o som da guitarra era uma bosta e também porque o capo me ajuda a não perder alguns acordes dependendo do tom.

Entendo. Pensei que era algo de seu estilo. Hoje em dia é? Sim, agora faz parte do meu estilo.

E você chama sua música de jizz jazz. O que é isso? Eu não sei, é como a música soa. Toda hora alguém tenta rotular algo como música pop, indie. Essa história de jizz jazz confunde as pessoas e faz sentido pra mim.

Mas como você descreveria sua música? Não sei… Acho que são músicas com guitarra, canções pop.

Não tem um lance mais lo-fi? Tem muita gente fazendo música mais lo-fi, mas eu acho que isso é mais sobre o jeito que a gravação é feita e eu não gosto desse jeito. Eu gosto de gravar com o melhor que tenho!

Desde 2009 você gravou sete álbuns, entre EPs e LPs. Você não acha que isso é bastante? Eu não acho que seja muita coisa. Eu gosto de tocar e gravar.

Mas você compõe na estrada? Não, não. Quando estou em casa eu penso: vou fazer um álbum. Aí faço todas as músicas e gravo. Eu gosto de fazer o álbum, dessa sensação do disco.

Isso é interessante. Você é de uma geração que é muito influenciada pela internet. Nem todo mundo dessa geração gosta dessa história de álbum. Eu gosto do álbum. Eu não gosto dessa ideia de gravar singles. Gosto dessa parada mais clássica. Um monte de músicas que tem sentido juntas. Isso é fantástico.

Mas você não acha que é parte dessa geração? No sentido juntar passado e presente. Sua músicas às vezes soa vintage, seus clipes parecem feitos com VHS, mas tudo tem um frescor. Eu acho que essas coisas que parecem VHS, coisas antigas, são coisas baratas também. Hoje em dia você tem muitas ferramentas digitais que não são boas. Nos anos 80 e nos anos 70 era tudo analógico, mas hoje em dia tem câmeras e equipamentos que você só precisa ligar. E no final o som é uma bosta. Você não faz escolhas, está tudo pronto. Tentar coisas novas é legal, mas gosto da maneira com que soam os álbuns antigos.

Você consegue dizer uns três discos que são relevantes pra você? Que soam dessa maneira? Transformer, do Lou Reed, é um álbum ótimo. Plastic Ono Band do John Lennon é fantástico. E Ram, do Paul McCartney. Esse álbum é muito bom.

E quais seriam os clássicos que te influenciaram? Beatles, The Kinks, Shuggie Otis, Lou Reed. Esses caras.

Fechando esse papo sobre internet, você não acha que ela acabou com as barreiras entre coisas do passado e do presente? Não fosse ela talvez você não conhecesse esses caras. É, talvez eu não conhecesse a música do Lou Reed. Mas quando a gente não tinha internet também estava tudo bem. Tudo muda muito rápido hoje em dia. Eu tive bandas por muito tempo, eu tentava fazer shows. Hoje em dia tem gente que produz música no quarto e nunca fez um show, nunca tocou fora dali. Enfim, a internet é bacana, sim. Se não fosse por ela talvez a gente nem estivesse aqui no Brasil. Mas muito do meu gosto musical foi formado antes do YouTube. Coisas que minha mãe ouvia. Quando eu tinha 12, 13 anos e quando a conexão era discada, lembra?

Sim, você tinha que esperar um tempão para baixar algo… É. Você tinha que querer mesmo aquilo que estava baixando!

Você não é de Montreal, mas você viveu um tempo por lá. Por quê? É uma cidade com uma cena musical forte. Fui pra lá porque era mais barato que Vancouver! A cena é legal, mas não me sinto parte dela. Eu fazia minha música. Era bacana porque várias bandas do Canadá vão para Montreal, mas nunca me senti muito conectado a elas. Eu não fui pra Montreal pra ser famoso ou pra ser a Grimes. Isso é estúpido pra cacete!

Mas você é mais famoso que muita gente lá, agora… É, mas não foi porque eu me mudei pra Montreal. Tem gente que valoriza essa cena de Montreal, mas é bobagem. Eu nem moro mais lá. A Grimes não está lá mais. A cidade tem uma reputação em cima de gente que nem está mais lá.

Você vive onde agora? Agora estou no Brooklyn.

Mas o Brooklyn também é um lugar que me soa hype: várias bandas vem de lá, cenas musicais… Sim, mas lá é muito legal porque você tem muitas cenas e muitas bandas. Em Montreal você faz um show e pensa: cara, eu não gostaria de tocar com essa banda. No Brooklyn você assiste uma banda e pensa: cara, eu gostaria de tocar essa banda. Isso acontece muitas vezes.

Você se mudou para o Brooklyn para ficar mais perto da sua gravadora? Na verdade me mudei porque era mais legal. Montreal estava muito chata.

Suas gravações são feitas em fita ou digitalmente? Todos meus álbuns eu gravei em fita, mesmo.

E suas músicas geralmente falam de coisas prosaicas, coisas comuns, romances normais. Por quê? Escrevo sobre as coisas que eu sei. Não quero ficar falando o que as pessoas devem fazer. Não quero escrever sobre algo que eu não sei. Escrevo sobre minha vida porque é algo que sei. Gosto das coisas pequenas. Gosto de escrever músicas românticas que não sejam muito específicas. Se eu tiver a oportunidade de escrever algo específico sobre mim, eu faço, mas isso é duvidoso. A partir do momento que você escreve uma música ela já não é mais sua. As pessoas podem fazer interpretações sobre aquilo e se ver ali.

Seu próximo disco sai em abril. Você já está tocando umas músicas novas? Sim, várias. É nossa primeira vez na América do Sul, então a gente tem que tocar músicas dos primeiros discos, mas a gente toca umas músicas novas. Isso é bom porque a gente tem tocado as mesmas músicas faz uns três anos. É legal ver as pessoas gritando as letras com a gente.

Pra acabar, aquela pergunta clássica: o que você conhece de música brasileira? Eu adoro o João Gilberto.

Essa é a resposta clássica também! É mesmo, mas eu gosto bastante de Garota de Ipanema. E daquela… O Pato. Quén, quén, quén.

Matéria originalmente publicada em março de 2014 no site da revista Trip.

Música

Fábio Trummer: música, política e punk na meia-idade

Super Sub América

Ao cantar “Salve a América do Sul”, o olindense Fabio Trummer, no imperativo, conclama e sauda o continente explorado anos a fio pelos impérios do norte. As filigranas da letra se confundem com a crueza de alta fidelidade da canção gravada com o clássico power trio punk: guitarra, baixo e bateria. Como cartão de visitas, a faixa abre o primeiro disco solo do vocalista da banda Eddie, “Super Sub América”.

Esse despretensioso grito de guerra latino-americano pode soar como uma releitura do “lixo ocidental” cantado por Milton Nascimento. Não menos mordaz que a visão do mineiro, a inspiração para Trummer se estende pelo álbum. “O Super Sub América vem do Eduardo Galeano”, diz o músico. Para o escritor uruguaio, o continente, sucessivamente subjugado por países mais ricos, é visto mundo afora como uma América de segunda classe.

A corrosão das letras consome as bases certeiras de Luca Bori e Diego Reis, baixista e baterista do Vivendo do Ócio. Rebentos do selo Sub-Pop como Pixies e Nirvana fazem parte do panteão de referências de Trummer, especialmente nesse disco. “Esse disco tem um sabor de anos 80”, conta o artista, um punk de meia idade como ele mesmo explica. “Tem a coisa do faça-você-mesmo e eu aprendi a tocar em banda, mas agora tenho 25 anos de experiência.”

Toda essa carreira foi dedicada à banda Eddie. O grupo, surgido no caldeirão do manguebeat, sempre correu por fora das misturas de maracatu, embolada, hip hop e música eletrônica – embora Trummer reconheça a natural influência do meio em que vive. “Continuamos até hoje porque criamos o nosso mercado”, diz ele, ainda vocalista da banda que se mantem ativa mesmo com seu projeto solo.

O disco “Super Sub América” tem participações de Daniel Ganjaman e foi produzido por Daniel Bózio com capa de Mozart Fernandes. Abaixo, ele pode ser ouvido em primeira mão. A seguir, Fabio Trummer fala sobre as inspirações para seu novo trabalho, a produção do álbum, cena pós-manguebeat, América do Sul e até rolezinho. “Isso mostra o que é o Brasil”, sentencia o músico ainda punk, ainda americano.

Como surgiu a ideia de fazer um disco solo? Fabio Trummer: Desde o carnaval no inferno eu tinha uma necessidade de fazer um formato diferente. A banda também desgasta muito. Às vezes você está com a banda mais tempo que com a família. Nos últimos dez anos eu fiquei mais tempo com a banda que com a família. Eu precisava desse exercício criativo, eu precisava de mais uma possibilidade de trabalho porque só eu moro em São Paulo e eu queria ter mais possibilidades de trabalho. Eu queria testar minha disciplina também. Chegar a uma técnica apurada de composição em que eu pudesse trabalhar mais rápido. Às vezes recebo encomendas e a composição é muito orgânica.

E como isso aconteceu? Fiquei de maio até o começo de dezembro completamente focado no trabalho. O Super Sub America vem do Eduardo Galeano. Ele fala que, no máximo, somos uma sub América, porque América mesmo é a América do Norte. Outra coisa que pensei é o punk de meia idade. Em 1985 o punk rock estava começando com bandas brasileiras e naquela época o Brasil estava saindo de uma ditadura para uma democracia que até hoje não se organizou. Me identifiquei com o punk porque ele se identifica com a situação. Ele tem a coisa do faça-você-mesmo e eu aprendi a tocar em banda, mas agora tenho 25 anos de experiência. Esse é o punk de meia idade. Queria muito cumprir prazos e isso é uma crítica que eu sempre faço em processos de trabalho de gravação. Os músicos não cumprem prazos. Isso é uma questão meio existencial. O artista tem um ritmo diferente, mas tem uma parte que é só técnica na gravação e não precisa de um ritmo diferente. Queria cumprir prazos e tive como meta cumprir os prazos de composição.

Qual foi sua agenda? Comecei em maio. Tinha alguns rascunhos, mas a maioria das músicas foram feitas até agosto. Chamei os meninos do Vivendo do Ócio, o Diego Reis e o Lucas Bori. Eu estava com tempo livre e queria tocar, ensaiar, fazer show, exercitar a guitarra também. O Eddie no início era muito roqueiro. Eu tenho uma técnica de distorção que era muito certeira, mas uma hora isso ficou repetitivo. Comecei a ouvir Fela Kuti, o Jorge Ben da década de 60 e fui descobrindo novas técnicas de guitarra. Eu queria aperfeiçoar o meu cantar também. Desenvolvi uma guitarra mais rítmica, a partir da Bossa Nova, do Afrobeat. São três acordes numa guitarra rítmica mais complexa mesmo. E nesse disco eu me voltei à guitarra com distorção, mais roqueira. Ano passado eu comprei guitarras, comprei amplificador. Eu estava sentindo uma necessidade de tocar melhor. Queria fazer tudo a partir do mínimo. Botei tudo com voz e violão e depois tudo com power trio. Já tinha a letra, mas terminei de compor no estúdio. Depois de ensaiar com o trio a gente fez um show e amarramos tudo mais ainda. Depois a gente gravou tudo ao vivo. Depois fui brincar com amplificadores e guitarras.

Você tinha uma timbragem pra cada música? Na mesma música havia timbragens diferentes. Normalmente eu faço isso, mas sem tanta atenção a timbres, sem garimpar ao que eu queria. Tem uma atenção maior com o instrumento. Uma relação mais afetiva na busca do timbre ou do feedback da guitarra com o amplificador. Foi uma brincadeira mesmo. Ouvi muito Smiths, Nirvana, Pixies, Placebo. Foram cinco ou seis bandas que ficaram me orientando. A minha escola de harmonia são os anos 80. É o trabalho desses caras. Esse disco tem um sabor anos 80. Eu disse para o Daniel, que está produzindo comigo, e para o pessoal da arte: há uma intenção dos anos 80. A poesia dos anos 80 parece um pouco com o que acontece hoje. O mundo de 87 é completamente diferente do que o mundo é hoje, a sociedade é diferente, mas musicalmente, não. Não em como acontece a comunicação com o público. Há uma necessidade de voltar pra rua. A gente vive numa geração que não é de garagem, é de quarto. Há uma certa necessidade de ir pra rua mesmo. Salve a distorção dos sons das ruas.

Você acha que a América do Sul sofre disso? Isso é típico de uma cultura estuprada por outra que é comercial e ditadora. Assim acontecem essas deformações. O McDonalds muda a cultura de todo o mundo. Ele vem e todo mundo deixa de comer algo saudável para comer aquilo que não alimenta, não nutre, apenas sacia. Esse tipo de ditadura do poder econômico é muito comum. Lugares como a América do Sul são lugares onde somos explorados a vida inteira. Eles tem uma bancada imensa de poder e ficamos à mercê do que eles querem fazer com a gente.
 
Você acha que as coisas tem mudado nos últimos dez anos? Mudou para o consumo. Hoje temos o poder consumista, mas não vejo infraestrutura. O Bolsa Família fez uma diferença tremenda. É um produto mundialmente copiado. Funciona. Agora falta a infraestrutura, a continuidade disso. O cara só tem o pão, mas não tem a oportunidade de fazer nada. Essa mão de obra está virando quase que mão de obra escrava em subempregos e primeiros empregos. A massa no Brasil é principalmente de gente em primeiro emprego.
 
As letras do disco transitam nessa manifestação? A maioria é. Na minha música sempre tiveram os dois lados: um momento de alegria e a minha veia mesmo, a coisa do punk rock de denúncia. Diferente de antigamente, isso vem de uma maneira com mais poesia, o que faz parte desse amadurecimento.

E antigamente qual era a relação da Eddie com o movimento manguebeat? Quando surgiu o movimento todo mundo já se conhecia, mas o Fred 04 e o Chico já tinham na cabeça uma maneira de eles conseguiram uma atenção na mídia. Eram bandas mais maduras na época. O Chico falou “o pessoal da Sony está vindo aí, vamos todo mundo pro estúdio, vamos botar umas percussões e a gente embrulha”. Eu falei “a música tem seu ritmo de desenvolvimento e se a gente mudar a gente não vai conseguir longevidade”. Todo mundo, de alguma maneira, sabia que ia ser músico profissional. Todo mundo acreditava muito e era muita gente, alguns muito talentosos. Na época que o Nação Zumbi e o Mundo Livre assinaram [com a Sony], a gente ainda estava buscando nossa identidade. Podíamos ter gravado com eles, podia ser bom ou ruim, mas a gente não teve esse pressa. E 25 anos depois vocês ainda continuam.

Por quê? Exatamente por isso. A música autoral não se desenvolve da noite pro dia, ainda mais uma música autoral que não tem nenhum nicho de mercado em que você se encaixe. É uma coisa diferente o que a indústria brasileire lhe oferece.Tem que ser a médio e longo prazo. É o tempo para se desenvolver como compositor, como cantor. Ninguém estudou, todo mundo aprendeu fazendo. É o tempo de formatar o seu mercado. Continuamos até hoje porque criamos o nosso mercado. Não é o mercado que a gente vê na MTV, nem na rádio, mas é o nosso mercado. Fizemos shows agora e foi lotação no SESC, em Brasília, etc. É um público conhecedor, que gosta de música, um consumidor consciente que não existe apenas para o Eddie. Ele existe para a música autoral. As mesmas pessoas que vão ao show do Criolo em Recife, vão ao show da Eddie. As mesmas pessoas que vão no show do Mundo Livre em Porto Alegre, vão ao show do Lucas Santtana. É um universo de música autoral que tem público fiel e cativo. Tem gente que acha que ser bem sucedido é virar um fenômeno de massa, mas nisso há um marketing muito grande. Quando você tem uma música autoral, a música tem personalidade que quase nunca é tão popular, mas tem seu público. No Brasil existe isso, só não é reconhecido pela mídia. O engraçado é que a mídia frequenta esse show, mas na maior parte dos veículos de comunicação aparecem outras coisas.

Mas você acha que esse conflito de popularidade e público é culpa de quem? Em Recife a gente tentou que uma rádio tocasse nossa produção musical desde o início do manguebeat. Nunca conseguimos, porque rádio é concessão pública. Eles só dão concessão pública para quem já tem várias concessões. As poucas rádios que tem concessões são comerciais. Uma gravadora paga para tocarem na programação os lançamentos. Sempre foi assim. Falta espaço mesmo. Falta uma democracia dentro da comunicação. Precisa de políticas voltadas a uma certa educação, a um certo conteúdo para TVs, rádios e revistas. Precisa de coisa de qualidade. A impressão que tenho é que o que está a frente das bancas e nas vitrines é superficialidade extrema. Precisa de mais conteúdo na TV, precisa afastar os vampiros da desgraça dos outros, precisa de qualidade e limites. A gente precisa fazer um trabalho de qualidade para que esse público que nos acompanha desde o começo continue nos acompanhando até os 80 anos. Isso acontece com o Eddie, porque tem crianças chegando agora e indo aos shows.

Isso tem a ver com o seu novo disco? O Trummer Super Sub America começou desde lá de trás com o que está errado. Ninguém contou essa história tão bem contada quanto o Eduardo Galeano no seu livro [As Veias Abertas da América Latina]. A gente ainda vive uma crise de identidade. Essa história do rolezinho, por exemplo. Acho que isso mostra o que é o Brasil. A gente tende a pensar que o Brasil é seu bairro, mas agora, através das informações via internet, você tem confrontos sociais. Você descobre que seu vizinho, de quem você sempre gostou, é um fascista. A gente erra muito sem saber, por ingenuidade. Em Olinda a gente sempre foi invadido. No Carnaval, pelas camadas mais pobres e mais ricas. Eu sempre vivi essa situação como olindense. Acho engraçado esse medo do rolezinho. Li o relato de um garoto dizendo que não tinha nada pra fazer, o único lazer é o shopping. Hoje o passeio cultural em Recife é ir ao shopping. Criaram esse valor. Isso é que está errado. Em vez de dar entretenimento de qualidade, você dá consumo.

E, falando sobre o disco, você ainda acredita nele? Nessa estrutura fechada do álbum? Sim. Acredito em ter um conceito e trabalhar nele. É como um filme. Gosto de pegar um álbum inteiro. Quando gosto muito de uma banda e escuto apenas uma música eu fico com vontade de mais. Qual o futuro da Eddie agora com seu trabalho solo? A Eddie continua e vou me dividir entre os dois projetos. Depende da demanda. Vou dar uma atenção a esse trabalho. É um presente que estou me dando. Perdi meu pai ano passado vendi o carro que ele me deixou — sou um pedestre assumido. Então estou mixando em Nova York e, embora não esteja gastando muito em comparação aos números da indústria fonográfica, estou fazendo um trabalho independente com qualidade. Com pessoas que escolhi a dedo por conta da energia da pessoa. É uma realização, um prazer mesmo. Já tenho clipe produzido pelo Gomes, grafiteiro daqui de São Paulo. Estamos experimentando formatos.

Você mantem mesmo o espírito punk… É uma busca de tentar algo diferente. O tempo inteiro eu tentei fugir dos formatos da indústria. Sempre gostei de me envolver com todas as fases de um álbum porque, pra mim, é um conceito que precisa ter unidade. A gente não trabalha nas avenidas das indústrias fonográficas. A gente trabalha nas ruelas, procurando atalhos, comendo pela beirada. Eu entro nas avenidas também, mas não dependo delas.

Entrevista originalmente publicada no site da revista Trip.