Tag Archives: eurocopa

Cultura, Jornalismo, Música

O pacto de sangue entre rap e futebol na França

Como ocorre no Brasil, o fim de cada jogo da França na Eurocopa 2016 acompanhou intermináveis mesas redondas na TV. Após a derrota para Portugal, todas lamentavam o gol do atacante Éder e tentavam, em vão, explicar o porquê do vice-campeonato.

Dias antes, nas quartas-de-final, o clima da análise era oposto: a maior parte das discussões celebrava os pormenores da goleada de 5 a 2 na Islândia. No canal i-Tele, um grupo questionava o gesto de Paul Pogba, meio-campista francês, ao comemorar seu tento. “Não seria uma ofensa ao público?”, questionou um deles.

“Isso é um dab”, respondeu Djibril Cissé. Com a tranqulidade de quem revela um segredo conhecido, o ex-jogador explicou que aquilo era um passo de dança importado do hip-hop. Era mais um exemplo da frutífera relação entre rap e futebol na França.

“Os jogadores estão muito próximos do rap por aqui, eles escutam esse tipo de música no vestiário, eles estão atualizados com o que tem de novo”, explica Mohammed Sylla. Mais conhecido por MHD, o rapper de 21 anos é a mais recente sensação do hip-hop francês Com seu chamado “Afro-Trap”: uma mistura de texturas do oeste africano a arranjos e prosódias clássicas do rap norte-americano.

Continue reading

Esporte, Jornalismo

​Fotos de franceses mais ou menos tristes após a derrota na Eurocopa

Minha memória mais viva do tétrico dia do 7 a 1 é flanar pelas ruas de São Paulo como barata tonta. Perder é ruim. Perder em uma competição de peso em casa é um coito interrompido. E você fica na mão sem saber o que fazer, pra onde ir, como terminar.

Nesse domingo, dois anos após nossa tragédia particular, os franceses passaram pelo mesmo purgatório — com menos humilhação. Vítima de um desconhecido Éder matador, a seleção francesa perdeu a Eurocopa 2016 para Portugal por 1 a 0.

O jogo foi no mesmo Stade de France onde Zidane acabou com o Brasil em 1998. Esse é outro trauma que guardo na cabeça, mas nem por isso sou antipático aos franceses. Na dor a gente se reconhece.

Por isso dei um rolê em Paris logo que o jogo acabou. Vi DJs tocando para pistas vazias, garçons varrendo calçadas com mais folhas de árvore que copos, gente que não sabia como voltar pra casa antes do amanhecer e lanchonetes de kebab sem fritas. Tristeza.

Mas também vi uma galera de bem com o que tinha acontecido. Portugueses — muitos de uma de uma geração que serviu de mão de obra de base na França, como foram os nordestinos em São Paulo — e franceses.

De bicicleta, pra provar que não estava tão tonto quanto os parisienses, passei pelos bairros de Menilmontant, République e Bastille. Um trajeto no norte-nordeste apinhado de bares da cidade que, mesmo na derrota, consegue festejar.

Esse senhor me chamou para dentro do bar em que ele estava. Ele queria porque queria que eu tocasse piano. Mas eu não sei tocar, disse a ele. Depois alguém apareceu e fez uma versão embromation de “Chega de Saudade”.

Continue reading