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Cultura

Um trenzinho de doido

Durante a perseguição a um caminhão colorido, cheio de luzes e personagens, um garoto de bicicleta aborda o fotógrafo Felipe Larozza. Papo vai, papo vem, ele descobre que somos de São Paulo e, com um olhar curioso, indaga: “Como são os trenzinhos de São Paulo?”. Em São Paulo não tem disso, não, mas em Ribeirão Preto, onde vive o pequeno, todo mundo tem uma história com trenzinho. Contarei algumas das que ouvi e todas que vivi ao desbravar o mundo de reluzentes colossos mecatrônicos, seres antropozoomórficos, casamentos entre profano e sagrado e confrontos de todos os tipos em uma cidade rodeada por um denso cinturão de cana de açúcar no interior de São Paulo.

Distantes do centro da cidade, nas quebradas onde as classes se confundem, jovens de máscaras e corpos vestidos com roupas malucas dançam, pulam, correm, brincam. Veículos imensos arrastam pequenas multidões ao som dos últimos lançamentos musicais em meio a uma erupção de cores. O povo admira, interage, para ou vira a esquina. Correm luzes como as das aparelhagens de Belém, gambiarras de baile funk, sistemas de som de trio elétrico, referências carnavalescas, símbolos infantis e delírio adolescente.

A nossa bandeira foi investigativa e nossa entrada, pacífica. A ideia platônica de trenzinho da alegria estava em nossa mente: um veículo mais ou menos comum que reboca vagões coloridos seguido por pessoas fantasiadas formando um pitoresco comboio cuja única função é circular pelos pontos turísticos de cidades pequenas — a orla, o coreto, a igreja, a ponte mais bonita. Sabíamos, contudo, que em Ribeirão Preto havia alguma coisa diferente por causa do trenzinho mais famoso do Brasil, o Trenzinho Carreta Furacão.

Ele foi o primeiro tipo exportação da cidade. No vídeo que correu a internet em 2010, Mickey, Fofão, Palhaço, Capitão América e Popeye marcam a cultura popular do país ao deturpar nosso imaginário lúdico com molejo, suíngue e mistura que só um Brasil brasileiro é capaz de oferecer. “Samba do Mestiço”, na trilha do vídeo original, canta para seguir em frente e olhar para os lados. E nessa toada o Carreta Furacão chegou aos canais de TV aberta naquele ano.

Os trenzinhos hoje são marco na internet brasileira em novos clássicos como Fofão sobe o muro, mas eles também são parte fundamental de Ribeirão Preto há pelo menos trinta anos. E isso não fica evidente na piada do meme ou do programa de auditório. A cidade tem a única organização exclusiva da classe no país, a Associação de Trenzinhos, com 14 empresas. Esse é apenas mais um detalhe de um fenômeno cultural interessante e de muita festa.

Tem que fazer por merecer pra ser o Fofão

Seus protagonistas são garotos como Renan e André Luiz “Sheyck”. Os irmãos de 17 anos, com apenas meses de diferença de idade, vivem na periferia de Ribeirão Preto. Eles estudam e trabalham de dia. À noite, saem de casa com uma fantasia remendada e um capacete de isopor embaixo do braço. De 20h a 23h, são estrelas do Trio Big Folia, trenzinho da empresa Dominium — também proprietária do Carreta Furacão. Um dos maiores da cidade, o mastodôntico duplex ambulante de luminosos e som potentes é palco para Renan, o Palhaço, e André, o Fofão.

“Tem que fazer por merecer pra ser o Fofão”, diz André. O cruzamento de espécies que resultou no personagem original não previa a aparição de uma linhagem hábil nas peripécias que ele faz. O Fofão de André sobe um muro e posa sob a luz em seu topo ao som de MC Sapão, dá um mortal apoiado na parede como Jackie Chan e treme os quadris freneticamente como uma integrante do Bonde das Maravilhas — tudo em cinco minutos. “Tem que ser louco!”, completa Renan. “Tem que passar dos limites!”

Encarnar o Fofão é atingir o mais alto nível no plano de carreira dos trenzinhos. O Palhaço vem a seguir. “É como qualquer empresa: quer subir?”, me perguntou Renan. “Tem que fazer por merecer.” Os personagens com as cabeleiras vastas são os mais cobiçados entre os dançarinos. Com trejeitos femininos, eles jogam as madeixas de lã de um lado para o outro. Nasce um novo gênero com uma dança que mistura passinhos do funk paulista, breakdance e footwork.

A coreografia é liderada pelo dançarino que dispara à frente. “Trenzinho é um pouco de tudo: axé, sertanejo, funk, arrocha, eletrônica”, explica Renan. Tem também parkour aplicado aos obstáculos próprios de uma cidade do interior, destreza de pixadores na escalada de muros e acrobacias circenses e humor pastelão de grupos como Os Trapalhões ou Os Três Patetas — ainda não tenho certeza se um cachorro realmente mordeu a bunda de um dos dançarinos que rebolava junto ao portão de uma casa.

Os garotos pouco ensaiam e de vez em quando vão a um parque para tentar uns passos. Quedas e acidentes são frequentes, mas a máscara dos personagens não cai. Enquanto dão voltas pelas quadras, os trenzinhos disputam espaço com carros e motos acostumados à festa itinerante. Entendi por que o Popeye é atropelado enquanto o Fofão sobe o muro quando eu mesmo corria ao lado dos trenzinhos. “Eu já fui atropelado por bike, moto, carro”, diz Renan. “Teve uma moto que me jogou pro alto, mas nem me machucou.”

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Leandro Wesley e os irmãos Renan e André Luiz “Sheyck”. Crédito: Felipe Larozza

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