The Drums mais algo a menos

Foram precisas duas edições do festival SXSW para o The Drums vir ao Brasil. Na edição de 2010 o grupo despontava em Austin e ontem, 31 de março, perto do fim da edição de 2011 do festival, o grupo despontava no Estúdio Emme, ali no condado pinheirense paulistano. Um ano se passou e o hype virou álbum que virou turnê internacional. O hype decantou, deu certa sustância ao disco, mas ainda não deu liga ao som dos rapazes ao vivo.

E olha que tem qualidade. Viajando numa melancolia curtida na sua felicidade — uma fossa pode ter seu riso antecipado —, o The Drums revisita os anos 80 em sua androginia e perfis melódicos densos. São vogais em falsete, choradas e ecoadas ao longe, que carregam uma tristeza cinza, no máximo. As cores e a feminilidade de David Bowie vêm misturadas aos olhos negros e timbres agudos de Robert Smith, todos itens sensíveis no vocalista do Drums. Em sua altivez hipster (e bota hipster nisso), Jonathan Pierce revisita solidões e abandonos. Ele cortaria os pulsos não fosse o amparo da banda, que segura ele, mas não segura a onda.

Aí falta a liga ao Drums. A guitarra de Jacob Graham, que se porta como um Tom Morello versão mini, realiza riffs sem apelo que ficariam isolados não fosse o apoio do substituto do Adam Kessler — e não achei o nome do rapaz nessa rede infinita. O tecladista — outro que não pôde ser nomeado — em uma piração exclusiva compunha momentos interessantes na aparelhagem distorcida, principalmente nos sons mais oitentistas da banda como “Me and the Moon” e “It Will All End In Tears”.

O tutano mesmo só veio com o baterista. Connor Hanwick tem seus méritos. Abusando da fórmula do rock atual, com hi-hats e caixas frenéticas, ele adiciona vez ou outra viradas que passam despercebidas no álbum. Os contratempos e ataques são benvindos, quebram a monotonia e, por isso mesmo, dão forma. A ironia não é a forma ser levada logo pelo “The Drummer”, mas sim por ela vir em “Let’s Go Surfin'”. Aí é que a onda volta a rolar. Por isso é o hit da banda, e não o contrário. E por ser hit, fatalmente, foi o ponto alto da noite.

Em começo de banda, Jacob se rasgou em agradecimentos ao Brasil. Fez até parte do show vestido com uma camiseta da seleção brasileira, no caso, personalizada. Bem a calhar em tempos que todos reclamam de má vontade de artistas em serem simpáticos ou idolatrarem a bandeira do país. No estúdio Emme, no entanto, a horda de óculos de aros grossos e hypemachiners não pareceu se importar muito com isso. O espaço comportou bem o público, com palco baixo e espaço para pulinhos indies sem trombadas. Fica a ressalva para o áudio, que teve falhas assustadoras e agoniantes durante a apresentação. A rapazeada da banda não deixava escapar nos gestos e nos rostos os desencontros com os engenheiros de som e roadies. Normal, também é algo para começo de banda. Com o tempo isso acaba e, torcemos, a onda flui pra valer.

Facebooktwitterredditpinterestmail
[ssba]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *