Black Stars Blocs

Independence_Arch

A seleção de Gana deu um nó tático na FIFA.

Como não tinham recebido a premiação pela classificação para a Copa do Mundo, os Estrelas Negras ameaçaram greve: não jogamos contra Portugal pela última rodada da fase de grupos. Sequer cruzaram os braços, a exceção de um treino boicotado, tamanho o poder de barganha que tinham em mãos. Um avião caixa-forte saiu de algum cofre escuso para desembarcar no Brasil com três milhões de dólares em espécie. Numa das cenas mais insólitas dessa Copa, o bicho chegou em Brasília e, com razão, foi escoltado até o hotel dos ganêses.

Se eles fossem metroviários em vésperas da Copa, muita gente ia olhar feio. O Datena ia parar de narrar jogo para voltar correndo pro Brasil Urgente. O tal yellow bloc logo deitaria-lhes a pecha de black stars blocs.

Como são jogadores, conseguiram no máximo arrancar um desagrado da FIFA, por ora. Como o prêmio não será tributado, a Fedération já não pode se gabar de ser a única turma livre de impostos no Brasil. Menos um título corporativo para ela, já que também não deve ser a única a movimentar grandes quantias de dinheiro durante o espaço-tempo Copa. Aliás, sobre dinheiro: embora o valor laureado ao time de Gana seja ultrajante a muita gente (inclusive aos metroviários), a grana nem é tanta perto do soldo do menino Neymar. Nessa história de futebol moderno não tem peladeiro, e sabe-se que o dinheiro fala mais alto que a camisa. O prometido era devido. Como quem devia, temia, a grana pingou.

Com a seleção de Gana não teve Bom Senso FC. Sócrates, da Democracia, e Saldanha, do Comunismo, talvez não gostassem dos fins, mas quem sabe exaltariam os meios dos Black Stars. E se isso não for suficiente para torcer por eles no jogo contra Portugal, ficam aqui mais cinco motivos para torcer por Gana.

Antes deles, vale saber: para chegar às oitavas de final, Gana precisa vencer Portugal e torcer pela derrota dos Estados Unidos para a Alemanha. No fim das contas, também precisa passar os norte-americanos no saldo de gols. Tarefa árdua, mas possível.

Um dos maiores futebolistas da África é ganês. Abedi Pele, nome dado em homenagem ao rei, foi um dos responsáveis por um dos maiores títulos do Olympique de Marseille, a Liga dos Campeões da UEFA de 1992.

– Gana foi eliminada pela mão de Suarez, o vampiro charrua, na Copa da África. Como o uruguaio já provou que seu caráter vale menos que uma cuia de mate da cisplatina, seria mais do que justo ver o time africano recompensado com a classificação para a fase eliminatória. (Loco Abreu continua sendo um mito pela cobrança por cobertura.)

– O time ganês valoriza as raízes do seu país. Nas eliminatórias para esse mundial, os jogadores e a comissão técnica fizeram uma preleção com cânticos tradicionais da terra.

– O povo ganês curte muito futebol. Não que seja diferente de muitos outros países africanos ou latino-americanos (nós todos do sul), mas a empolgação dos caras com o gol contra os Estados Unidos é de por respeito. E isso tudo no Bronx.

– Gana tem uma das cenas musicais mais prolíficas da África. O continente é grande demais, mas Gana consegue resumir nas ruas de Accra o que se passa no lado ocidental da África. Não à toa, Kwame Nkrumah, seu primeiro presidente, foi um dos pioneiros do Pan-Africanismo. Até ele tomar o cargo e o país se transformar em república, Gana seguiu a infeliz cartilha do dominado e foi colonizada por vários países europeus. Conservou centenas de línguas e adicionou o inglês ao léxico. Hoje, é ladeada pela afrancesada Costa do Marfim e pela opulenta Nigéria. Esse encontro sucessivo deságua em formas revistas do hip hop do norte, do suíngue da África francófona e do jazz importado no começo do século XX.

Numa linha do tempo moderna de ponta a ponta, o highlife do Alhaji K.Frimpong and his Cubano Fiestas…

…evolui até o rap do Blitz, the Ambassador…

…e alcança as massas no Afrobeats do Atumpan.

E não para por aí.

[ssba]

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