Um rolezinho da tecnologia à música

A maior subversão da periferia é a tecnologia. 

Com pequenos aparelhos, jovens pobres promoveram grandes encontros. Mensagens sem rastro passearam entre celulares. Redes sociais aglomeraram garotos e garotas. Descomprometida, a organização desorganizou, como prometido. O pacato cidadão e a polícia ostensiva não gostaram. O conflito se desenhou. Quem entende?

O filósofo Zygmunt Bauman fez a seguinte análise. “Tais explosões são uma combinação de desigualdade social e consumismo. Não estamos falando de uma revolta de gente miserável ou faminta ou de minorias étnicas e religiosas reprimidas. Foi um motim de consumidores excluídos e frustrados.”

Ele fala das revoltas ocorridas em Londres em meados de 2011. Ou seria dos rolezinhos?

Em maio daquele ano, numa tarde, conversei com o Mc Dede (na foto). Àquela altura, a música dele corria pelas conexões (às vezes gambiarras) da periferia. Do Orkut da lan house ao Youtube do computador na prestação, Dede ligava Cidade Tiradentes e Baixada Santista com parada em várias quebradas de São Paulo. A série Reis da Rua mostra bem isso.

Seu funk não tinha rótulo, mas embalava ingredientes inflamáveis do que estouraria como ostentação. “A gente fala disso porque é o quê a gente quer ter: uma moto, um tênis, um boné”, me disse ele.  A receita está em Olha o Kit que, se não a primeira, é uma das mais importantes música do gênero — uma suíte do pancadão.

Meu guarda-roupa é o shopping, as novinha não resiste
Billabong, Ecko, Oakley, Onbongo e Quiksilver

Na música, Mc Dede canta a bola dos rolezinhos: um passeio de muita gente por um grande guarda-roupa.

Rolezinhos em São Paulo e levantes em Londres. Ambos são sintomas da mesma crise do consumo. Cabeças de uma hidra que recebe gordas injeções de dinheiro nas veias. Na Europa de terra arrasada deu-se a manutenção do sistema financeiro a custo do alto índice de desemprego. Na terra arrasada pela Europa deu-se o alto índice de emprego, ainda que sub, junto do acesso ao crédito.

O nosso panorama complicado se satura de disse-me-disse. Não cabem muitas afirmações como os palanquismos de esquerda e direita ou legitimações desses tais lado de lá ou lado de cá das pontes (generalização tão perigosa quanto o termo classe média). Melhor são aproximações como aquelas que denunciam o papel da música enquanto cronista sem panfletagem.

O paralelo britânico pode ser mais dilatado. London’s Burning, antevia o Clash em 79, mas não como na sua White Riot, de 77. O decadentismo de então nascia da juventude a esmo subjugada por crises do petróleo, desemprego e inflação pré-bem estar social de Thatcher. Trinta anos depois e mais uma geração perdida se manifestava no Reino Unido.

No Brasil a comparação demora menos e não se restringe ao funk — sertanejo e forró vivem igualmente dessa crise. Mc Dede, Mc Lon, Mcs Samuka e Nego, Mc Daleste, Mcs Chiquinho e AmaralMc Tekinho, Mcs Ousado e NaldoMc Guimê, Mc Rodolfinho e Valesca Popozuda. São dez músicas que mencionam uma mesma palavra: camarote. O pódio da opulência simplifica em si mesmo a confusão do discurso. A seu rei bonachão, pedras; aos plebeus que conquistaram-no, louros e loiras. Muitas.

Quem canta camarote, mas não tem nem espaço para festa (ou banco para sentar), tem o quê? O shopping que a cidade empurra goela abaixo com suas lojas propagandeadas cérebro a dentro. Não só, aliás. O funk ostentação tem cadeira cativa no bonde do rolezinho que toma as praças de alimentação e também o transporte, as calçadas e as ruas públicas.

No shopping ele canta, mas no ônibus ele escuta. Com Dede no celular em alto e mau som, o moleque avisa todos a seu redor: eu estou aqui! O revanchismo sônico desses garotos é mais uma expressão incompreendida. Reflexo da ostentação de bens e equivalente às bloc parties do hip hop ou aos soundsystem jamaicanos.

O deboche ou o ódio são as saídas de quem não entende. Enquanto a nossa intelligentsia escorraça os “funkeiros de busão”, no Reino Unido a prática, chamada sodcasting, é objeto de pautas e estudos. Não deixamos por menos e demos um passo adiante: por aqui tem adolescente aproveitando o intervalo da escola para fazer funk em cima de bases criadas no próprio celular.

Do moleque ao militante, a periferia é articulada em várias frentes. A Rede de Comunidades do Extremo Sul mantém diálogo com o MPL e o MTST mobilizou seis mil pessoas num protesto que chamou a atenção da opinião pública para a impressionante Nova Palestina — que não é parque, nem é na Augusta. Tem estúdio de música no Campo Limpo que, numa garagem, grava, mixa e masteriza.

Por isso a maior subversão da periferia é a tecnologia. Não se trata de democratização do acesso, termo político que muitas vezes esconde o embuste de serviços limitados e preços altos. Trata-se de deturpar o maquinário que, enquanto suporte a novas operações estéticas e expressões inerentes, põe em xeque a modorra social. Dub, Reggaeton, Hip Hop, Acid House e outros gêneros ensinam.

Com um único aparelho — ele mesmo um item cintilante nessa prateleira de consumo –, um garoto da periferia, como Dede, pode gravar e tocar seu funk. Filmar a cena é essencial para conquistar visibilidade. Depois é só jogar na rede. Se não der em nada, pelo menos o celular serve para mandar mensagens, como os parceiros de Brixton. Quem sabe até combinar um rolezinho.

O papo nas redes sociais nessa madrugada é que Mc Codorna (desconhecia até então) está morto. Caso seja confirmada, o funkeiro abre a lista fúnebre de 2014.

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