Um estandarte em forma de bandeira carnavalesca

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Tenho uma camiseta para fazer amigos. Saio de casa isolado das redes, saio com essa camiseta. Fogo fátuo do “Adicionar” por fogo feito das esquinas, cai mais legal uma peita bonitona pra um grito na rua que uma foto descolada pra uma cutucada no navegador.

Essa camiseta tem estampada, em corpo todo, uma bandeira. De torso a torso o azul e branco arco-irisado em cruz e estrela de Pernambuco.

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Pois pronto. Visto a camiseta e já começo a ser interpelado. “Vai Pernambuco”, “Ae Pernambuco”, “Vousimbora pra lá!”. Sem vírgula, sem vocativo, sem cerimônia: a camiseta faz amigos por mim. Qual bebida antes da termidoriana lei seca.

O pernambucano se identifica com suas fronteiras.

Fora delas, ele refaz o caminho nordestino. Conserva a raspa do tacho do português autóctone — com seus tês pronunciados e erres agargantados. Troca macaxeira e charque por mandioca e carne seca. Torce pelo leão, pelo timbú ou pela coral — pelos times do Rio eu nunca vi. E dá um grito de guerra sempre que vê a bandeira.

Dentro das fronteiras, onde o mastro alcança, o grito vira canto. O carnaval é identitário pra todo o Brasil. No Pernambuco ele é identidade. Número genérico refinado a detalhes únicos de nações de maracatu, grupos de caboclinhos, bandas populares, cirandas e cocos de roda, orquestras de frevo, troças mistas ou não. Entre Petrolina (que não é vizinha da Juazeiro de Padre Cícero) e a foz do Capibaribe (que não é só de Capiba), o carnaval que faz carne e coração faz sangue igual.

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A mauricéia nassoviana. Comparável à Veneza mais pelo mecenato de sua cultura que pelos rios, pontes e overdrives. As cidades siamesas que desdenham de gêmeas como Budapeste. As pessoas circulam pelas ruas de alfinim esticado e estreito sob sol de aço. Assim, ainda, qual polvorosa quando se ouve Vassourinhas? A canção mais solfejada de todos os tempos. Não tem IBOPE ou Google que diga que é não.

E a pressão aumenta. É gente, cor, textura, tamanho, liberdade, fantasia, cheiro demais. E mais os sons. Música, que agrega, no carnaval de Pernambuco aglutina. Que dirá se não há cordões — que poderiam chicotear alguém. Junto e misturado. Baião de dois milhões. Galo da Madrugada! Homem da Meia Noite! Herança libertária de uma terra acostumada a revoluções. De mascates, de praias, de padres.

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O pernambucano se vê nesse pedaço de chão pisado por tantas manifestações nesses quatro (?) dias estendidos ao cansaço. Muito mais que em qualquer estética da fome. Estática da fome de fotos e filmes e reportagens do Jornal Nacional que sabe mais de Nova York que de Casa Caiada.

Casa Caiada do Mombojó. Colada no Bairro Novo do Eddie. Quase agarrado no Peixinhos de Chico Science que já tinha cantado Imbiribeira, Bom pastor, Ibura, Ipseb, Torreão, Casa Amarela, Boa Viagem, Genipapo, Bonifácio, Santo Amaro, Madalena, Boa Vista, Dois Irmãos, Cais do porto, Caxangá, Brasilit, Beberibe, CDU, Capibaribe.

E o Centrão. A rua do Sol, a rua da Boa Hora, a rua da Aurora, a rua das Ninfas, a rua da Matriz, a rua da Saudade, a rua da Soledade, a rua Benfica, a rua da Piedade — pode se acalmar, seu Bandeira, que nenhuma delas virou rua doutor qualquer coisa. Ruas que até hoje dão pé. De frutas. “Por aqui não se morre de fome”, diz meu avô.

Centrão Alceu Valença.

Nesse carnaval ele se fantasiou de Robespierre a conclamar (mais uma) Revolução do Pernambouc. “Liberté, egalité et fraternité!” bradou o artista eterno insatisfeito no show de encerramento da festa. Os pernambucanos entenderam e foliaram. Está na bandeira-estandarte.

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As fotos são do Erikson Hoff

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