[UOL Tab] Angolanos do Fenômenos do Semba conquistam mundo com dancinha e cachupa

Matéria originalmente publicada no UOL Tab em abril de 2020.


Em sua foto de perfil do WhatsApp, Adilson Maíza posa de traje de gala ao lado da bandeira de Angola e do vice-presidente do país, Bornito de Sousa. O convidado ilustre da cerimônia era o próprio Adilson. Ele é líder do Fenômenos do Semba, grupo de dança angolano que tem vivido um ano de fenômeno mesmo.

Em fevereiro de 2020, Adilson e os amigos de baile postaram no Facebook um vídeo em que dançam a música “Jerusalema”, dos sul-africanos Master KG e Nomceboo. A coreografia estourou e mudou a história do grupo — que passou a ver seus passinhos replicados em todos os cantos do mundo e, hoje, lida com uma agenda cheia de eventos, aulas e até encontros com presidentes.

“Era uma cachupa”, lembra Adilson. “A gente estava comendo uma cachupa.” O prato com a comida, uma espécie de feijoada cabo-verdiana, dá o toque especial do vídeo que hoje tem mais de 16 milhões de visualizações apenas no YouTube.

A trupe fazia uma comemoração por mais um ano de atividade e resolveu gravar uma coreografia simples, por brincadeira, enquanto comia. Com destreza e ginga de quem sabe do riscado, os Fenômenos do Semba vão soltando os passos e se juntando em frente à câmera do celular — sem parar para dar uma garfada de vez em quando. “Foi tão natural que a gente estava a comer e continuou, foi exatamente como está no vídeo, sem alteração nem edição”, diz Adilson.

Foram necessárias menos de 12 horas de internet para que o vídeo já se mostrasse incomum em meio a outras postagens de Adilson na sua página no Facebook. “Depois que chegamos à marca de um milhão de visualizações, em um dia, postei no YouTube, e aí fez mais estrago ainda!”, conta o dançarino. “No terceiro dia, eu comecei a receber vídeos de pessoas de vários lugares do mundo a copiar os nossos passos.”

A hashtag #JerusalemaChallenge se espalhou feito rastilho de pólvora nos meses seguintes. De austríacos à beira de um lago nos Alpes a brasileiros em Copacabana, venezuelanos em frente a um estádio de futebol e romenos em uma grande praça da capital, Janet Jackson e Cristiano Ronaldo, igrejas e companhias aéreas, enfim, não é exagero dizer que a dancinha pegou todo o mundo.

Às semanas seguintes do hit vieram os convites para participar de programas de TV — em um deles, os Fenômenos do Semba comem um prato de macarronada enquanto dançam —, aulas via Zoom, apresentações virtuais e a visita ao gabinete presidencial. “Eles nos convocaram para apresentar propostas, trabalhar conosco e nos parabenizar por levar a cultura angolana para o mundo”, conta Adilson.

“Isso mudou a vida por completo, foi num estalar de dedos. Nós vínhamos trabalhando no mundo da dança há muito tempo, a gente sempre esperou que algo assim acontecesse, mas não achamos que ia ser de uma forma tão rápida assim”.

Happy Sunday u guys #Jerusalema : @MasterKGsa pic.twitter.com/vZDgZzT7dN? Janet Jackson (@JanetJackson) September 6, 2020

Danças e dancinhas

Apesar de abrupto, o sucesso não foi tão rápido assim se considerado o tempo de existência do coletivo. O Fenômenos do Semba é um grupo de dança e academia que existe há mais de 15 anos. A lista de estilos que os membros da equipe performam e ensinam é um recorte histórico e moderno das danças angolanas. Tem kizomba, bungula, kabetula, tarraxinha e, claro, semba. “Nosso nome tem semba porque essa é a dança que nos identifica enquanto angolanos, e dentro do semba há um mundo no que concerne a cultura angolana”, explica Adilson.

A coreografia do vídeo leva o nome de dança da família, e é literalmente isso. A dança é um daqueles passinhos que sempre aparecem em casamentos ou qualquer outra festa que reúna gerações de famílias angolanas. “Quando soltam a música e alguém começa a dançar assim, todo mundo dança também”, diz Adilson. “É impossível dançar sozinho, são passos leves e acessíveis para todos”.

O artista afirma, contudo, que o grupo deu um toque de personalidade na brincadeira que lhes rendeu fama internacional. Essa forma de adaptação e recriação, diz Adilson, é parte da cultura angolana.

A canção que embala o vídeo, por exemplo, é música eletrônica sul-africana. Nos anos 90, músicas de pista como house e techno encontraram boa recepção no país e até hoje essas correntes estão na essência de gêneros originais cada vez mais conhecidos no continente africano e no mundo. É o caso do kwaito, do gqom e do house gospel que abarca a faixa “Jerusalema”, cujo refrão diz “Jerusalém é minha casa” em isiZulu — língua mais falada na África do Sul.

“Depois é que fomos entender a letra”, diz Adilson. “Se soubéssemos que era sobre esse tema, talvez nem estivéssemos comendo, mas foi algo espontâneo e caiu bem aquela naturalidade, aquela africanidade, porque estávamos a festejar mesmo sem ter muito.”

Os resultados em números, até agora, não foram poucos. Até mesmo Master KG, o compositor da faixa, tem o que comemorar. Desde que o vídeo com a dancinha se tornou viral, a música “Jerusalema” chegou ao topo das paradas em diversos países europeus e ganhou versões de artistas em países como Venezuela e Nigéria. Nesse último caso, quem se juntou ao remix foi o cantor Burna Boy, atualmente a maior estrela da música pop africana em inglês.

Adilson Maíza, líder do grupo Fenômenos do Semba - Sergio Inacio - Sergio Inacio
Adilson Maíza, líder do grupo Fenômenos do SembaImagem: Sergio Inacio

Conexão Brasil-Angola

Os Fenômenos do Semba também têm colhido resultados que vão além da fama repentina. A academia, que fica em Luanda, passou por uma reestruturação. E o WhatsApp do Adilson não para de receber mensagens de contratantes. “Antes do vídeo, tínhamos de 2 a 3 atividades por mês, mas hoje recebemos entre 10 e 15 propostas e temos de fazer uma seleção”, conta o dançarino. Os convites vão de conferências online a coreografias para artistas de diferentes países africanos e europeus.

Os eventos presenciais ainda não são tantos devido às restrições implementadas pelo governo angolano para frear a pandemia. O país apresenta atualmente uma taxa de 0,46 mortes por milhão de habitantes — o Brasil tem cerca de 85 mortes por milhão. Adilson diz que gostaria de vir com seu grupo ao país novamente. Os Fenômenos do Semba já estiveram em São Paulo e no Rio, e o grupo diz ver o Brasil como segunda casa dos angolanos. “Nós temos mais seguidores do Brasil do que da Angola nas nossas redes”, conta Adilson, ao ressaltar que no seu país as cantoras Ludmilla e Jojô Toddynho fazem muito sucesso.

Se por um lado Adilson gostaria que a pandemia acabasse o quanto antes, facilitando viagens da trupe pelo mundo, ele também sabe que os Fenômenos do Semba ainda têm mais oportunidades pela frente. O posto de embaixadores quase oficiais da dança e cultura angolana não vai embora tão cedo depois do #JerusalemaChallenge.

“O vídeo se tornou um cartão de visitas para nós, e é muito gratificante isso”, diz o artista. “Enquanto não surgir outro sucesso, esse vai demorar a passar”.